Descobri que também este intermediário tem jogado fora, ao invés de entregar, parte dos textos que dou a ele --- apesar das quantidades cada vez maiores de ração que me cobra pelo serviço. Tanto faz.
Já não ligo para isso, assim como não me incomodo de cumprir as ordens, de dar as ordens, de sorrir quando preciso sorrir etc. Tanto faz.
Nos últimos tempos, descobri as coisas mais absurdas, que me tiraram qualquer possibilidade de reação. Meus carcereiros, também eles, estão contaminados. Pior: cultivam o vírus e o disseminam a conta-gotas. Nos trancam aqui e nos tolhem a comunicação não porque temem que a doença se espalhe para além dessas grades. Ela já se espalhou. Não, o medo deles é outro, é outra a causa de nossa privação. Não nos isolaram para salvaguardar a você e aos outros. Se me tiram agora o papel das mãos é porque acham que dele, um dia, pode nascer a cura.
Mostrando postagens com marcador 2.9 Cárcere. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 2.9 Cárcere. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 4 de maio de 2012
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Dia 15
Ao longo dos dias, somos submetidos a uma série
de procedimentos e exames que parecem indicar um certo sadismo em
nossos carcereiros. Às vezes, chego a julgar que não estejamos
isolados por causa da doença, mas de algum experimento sociológico
de extremo mau-gosto.
Uma vez por semana, por exemplo, somos forçados a
usar um uniforme especial. Não fazemos nenhuma atividade excepcional
que justifique essa mudança, mas aqueles que se esquecem e vestem o
uniforme habitual são retaliados pelo engano. Em outras ocasiões,
fazem-nos passar horas seguidas numa ou noutra posição. De tempos
em tempos, talvez por se sentirem entediados, dão-nos objetos para
carregar, levando-os de um carcereiro a outro apenas para termos de
levá-los de volta depois. Ou então, marcam, obedecendo a critérios
obscuros ou a critério algum, determinados prisioneiros e nos fazem
venerá-los por alguns dias, como se fossem heróis ou divindades.
Nada impede, porém, que essas pessoas seja posteriormente execradas
pelos mesmos carcereiros que as selecionaram.
Além disso, durante
uma hora por dia, todos os dias, somos incentivados a conversar com
outros cativos sobre nossas vidas anteriores, fora daquelas celas. É
comum que, nessas horas, nossos carcereiros venham até nós e nos
perguntem o que faremos no dia --- segundo eles, próximo --- de
nossa libertação. Os outros presos parecem acreditar piamente nas
promessas de indulto, de forma que respondem animados e fazem planos
e dizem coisas como “Não vejo a hora”.
Não quero, porém,
soar estoico. Eu mesmo mal posso esperar pelo dia em que me deixarão
voltar para você.
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Dia 14
Ontem, vi com clareza
os efeitos do vírus sobre um homem. Sua fisionomia se transformou e
até seu comportamento foi afetado. Em seu trato com os colegas,
parecia outro. Mais ríspido, mais agressivo. Não tardou, porém, e
aqueles próximos a ele também começaram a apresentar os sintomas
da doença. A afetação do humor é sempre imediata, mas ocorre de
formas infinitamente variadas: há quem feche-se em reclusão, há
quem se torne extrovertido e isento de qualquer freio social – como
se constantemente embriagado. O efeito físico não é menos
imprevisível: alguns contaminados engordam, tornando-se flácidos e
preguiçosos, enquanto outros descontrolam-se, hiperativos, e dão
sinais de desnutrição. Eu? Julgo-me ainda inalterado. Mas não me
engano. Pergunte aos outros e verá: qualquer um deles dirá o mesmo
sobre si.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Dia 5
Eles, os homens que cuidam das portas, nos tratam bem. Há ração e água em fartura, então, mesmo com a doença, muitos de nós engordam. Seus desígnios são um enigma, porém. Dão-nos ferramentas e deixam que trabalhemos a terra e, contudo, tudo o que produzimos nos é tirado. Ao fim do dia, são eles que ficam com tudo.
A nós, o vírus.
A nós, o vírus.
Dia 2
Este é meu segundo dia aqui. Ontem, escrevi na areia um texto que já sabia fadado a desaparecer. De qualquer forma, não teria como levá-lo aos olhos de quem quer que fosse. Hoje, encontrei um correspondente: um portador a quem posso entregar esses escritos. É um sujeito pequeno, mirrado, mesmo. Não sei se posso confiar nele. Talvez me denuncie tão logo lhe dê as costas. Mas não me importa, já que não há mais o que fazer. Entregarei os textos a ele, portanto, e aguardarei pelo que vier.
Assinar:
Postagens (Atom)