quarta-feira, 11 de junho de 2008

Metalinguagem

Mal do século, até mesmo para a China - por Alexandre Cruz Gabriel Mourão Soares

A pirataria é o mal do nosso tempo, pois alimenta uma economia informal monstruosa. Por Alexandre Cruz Gabriel Mourão Soares

No ano passado a Interpol assustou o mundo ao anunciar que o volume transacionado pela pirataria, termo aqui entendido como contrafação, descaminho, subfaturamento e outros delitos correlatos, atingia a alarmante cifra de U$ 516 bilhões, ultrapassando até mesmo o tráfico de drogas, que movimentou U$ 322 bilhões em 2006.

O recado deve ser bem compreendido por governos e indústria: a pirataria é o maior desafio do comércio internacional no século XXI. A razão é simples, mas não está explicada somente pelos de postos de trabalho que deixam de ser criados, pela evasão de divisas, pela redução da arrecadação de impostos ou pelos severos e muitas vezes fatais malefícios às empresas que deixam de faturar.

Tampouco a razão de a pirataria ser o mal do século está unicamente explicada pela monstruosa economia informal que alimenta, fomentando um crime organizado internacional e gerando imensas bolsas de massa de mão-de-obra que, a despeito de não recolher impostos, utilizam-se dos serviços públicos (como o SUS no caso do Brasil) e ainda aposentam-se sem ter contribuído para o sistema, pressionando os gastos dos governos de todo o mundo.

A pirataria literalmente faz lixo de toda a evolução e luta histórica da sociedade por décadas a fio para estabelecer o consagrado direito do consumidor, especialmente quando assistimos, pasmos, os dados da OECD (Organization for Economic Development and Cooperation) recém-divulgados no Terceiro Congresso Mundial de Combate à Pirataria e à Falsificação em Genebra no dia 31 de Janeiro deste ano: 30% dos remédios transacionados em todo o mundo são falsificados.

Somam-se ainda os sem-número de brinquedos falsificados fabricados à base de restos de material hospitalar; óculos escuros falsificados que ao fazerem dilatar a pupila e não apresentarem proteção aos raios ultravioletas do sol, criam legiões de jovens com problemas precoces de visão, além de produtos de limpeza altamente nocivos no seu manuseio, entre tantos outros.

A pirataria é o maior desafio do século porque, não obstante todos os assustadores malefícios acima listados, ainda apresentam uma característica fatal ao crescimento sustentado na economia mundial: inibe a inovação.

Desde as obras de Schumpeter sabemos que o crescimento sustentado, do ponto de vista estritamente econômico, se faz com aumento da produtividade. Em outras palavras, fazer mais, com menos e melhor. A raça humana depende da inovação para viver cada vez mais, e em melhores condições de bem-estar. Razão esta que explica as proteções legais da propriedade intelectual recebe em quase todo o mundo.

A pirataria torna inviável o investimento em inovação. Torna inviável, quando não impossível, os recursos aportados na criatividade humana, na obra intelectual e na invenção. Com isso deixam de surgir novas tecnologias, novos produtos, novos artistas, novos remédios, novas vacinas e até mesmo novos livros.

A própria China, que tem inundado o mundo com produtos de todos os tipos cuja autenticidade, não-raro, é severamente questionada por diversos países, vai beber do próprio veneno. Explica-se: para manter-se como o maior fornecedor de mercadorias do mundo, a China foi o terceiro maior país em investimentos em P&D (Pesquisa e Desenvolvimento), cerca de U$ 1,3 bilhão em 2006, segundo a OECD. Logo, a falta de um arcabouço jurídico e de um aparato estatal para a proteção da propriedade intelectual vai também brecar o motor da economia chinesa.

No Brasil, muito avançamos nos últimos três anos, especialmente com a articulação e integração da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Receita Federal no âmbito do Conselho Nacional de Combate à Pirataria, criado em 2004 e vinculado ao Ministério da Justiça. Entretanto o Brasil figura na 5º colocação no Ranking de Pirataria da OECD. Nestes avanços podemos incluir o controle da situação da fronteira de Foz do Iguaçu – região historicamente emblemática para a entrada de produtos piratas no Brasil.

Nada obstante, em quase todas as grandes cidades brasileiras temos um centro de vendas de produtos piratas a céu aberto, aceitando todos os meios de pagamento existentes, e contando muitas vezes com investimento do próprio Estado na forma de serviços públicos e até mesmo com financiamentos públicos – como no caso da chamada “Feira dos Importados” em Brasília, que apresenta uma convidativa placa do BNDES em sua entrada, de onde é possível avistar o Congresso Nacional.

Para reverter este quadro é necessário ao Brasil realizar a mais importante de todas as reformas – a qual independe do governo ou do Congresso -, a reforma de valores. Isto porque jamais o preço de um produto pirateado vai ser superior ao produto original, pois enquanto este investe na inovação, em marketing, em pessoas e ainda arca com a imensa carga tributária atual, aquele a isso tudo se furta.


Alexandre Cruz é economista e presidente do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (www.forumcontrapirataria.org)


Publicado no jornal Valor Econômico, pág. A12 - Opinião. Em 27 de março de 2007

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Ele morreu

Um dos problemas da linguagem escrita, acho, é mesmo que as palavras sejam todas tão democraticamente, irritantemente iguais. Os verbos são, apenas, e não param para pensar que entre eles há aqueles que são banais, corriqueiros, e aqueles que importam mais do que tudo. Aí você pode ter um texto que diz que estava o casal, e ela viveu, penou, cansou, odiou, chorou, cozinhou, pensou e pensou e pensou, decidiu, misturou, serviu; e ele amou, viveu, perdeu (o encanto?), acostumou, traiu, chegou, sentou, comeu, morreu.

Ele morreu e talvez nem se percebesse; ali, no meio de tantos outros verbos, talvez um leitor cansado, sonolento, desatento, ou sei lá que outro fator poderia fazer com que ele morresse e ninguém notasse. E na página seguinte estariam todos no enterro e só então o leitor acordaria e afastaria o livro, fazendo uma cara espantada e diria Putaqueopariu, ele morreu!, e depois voltaria as páginas correndo, pra achar exatamente aonde foi que isso tudo aconteceu.

Não podia ser assim.


Podia ser assim?:

Estava o casal, e ela viveu, penou, cansou, odiou, chorou, cozinhou, pensou e pensou e pensou, decidiu, misturou, serviu; e ele amou, viveu, perdeu (a partida?), acostumou, traiu, chegou, sentou, comeu, morreu.


Ou o contexto conta mais?

Estava o casal, e ela viveu, penou, cansou, odiou, chorou, cozinhou, pensou e pensou e pensou, decidiu, misturou, serviu; e ele amou, viveu, perdeu (tudo?), acostumou, traiu, chegou, sentou, comeu, morreu.



Ou será que, diante da efemeridade da vida, e das coisas, e de tudo, os verbos fazem bem de serem assim, todos iguais? Morreu e pronto, como bem podia não ter morrido. Ou será que melhor seria dar a ênfase através desse jogo de tudo que é a literatura?

Ou será que melhor seria o leitor ficar atento?

domingo, 23 de março de 2008

Sobre as borboletas

Eleanor era uma borboleta cor-de-rosa e laranja e de todas as cores, e ela voava e voava, mas ninguém a podia ver, exceto por Carolina. Carolina era uma borboleta, também, mas não como Eleanor, porque não voava, apenas balançava a cabeça para frente e para trás enquanto seguia Eleanor com os olhos fechados, ou abertos, porque tanto fazia.

Eleanor falou um dia para Carolina que não se preocupasse, porque um dia ambas voariam juntas e era só uma questão de tempo, mesmo. Carolina riu e disse É claro, tolinha, é claro que voaremos pra longe daqui!, e sorriu o sorriso mais lindo que se pode sorrir.

E como, sem querer, sua fala e seu sorriso escaparam do campo por onde Eleanor voava e chegaram até as enfermeiras, Carolina foi levada para o jardim. Uma das mulheres que a levava disse que era bom que ela ficasse sonhando, mesmo, que era melhor. Aí Carolina sorriu de novo, porque entendia tudo e o que ninguém sabia (só Eleanor) era que não demoraria muito até ela sair do seu casulo.

Uma semana depois, cuspiu, escondida, as pílulas da noite e, no dia seguinte, as enfermeiras não a encontraram sobre a cama: tinha voado para longe.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Triste fim ou Exercício de Consciência

Estava apático, abatido, dominado pelo medo ou pelo cansaço ou pelo choque ou talvez fosse mesmo o sono de ter acordado tão poucas horas depois de ir dormir, e tamborilava os dedos na mesa enquanto girava o copo plástico vazio em dúvida quanto a enchê-lo ou não, pela terceira vez naquela hora, com café. Não obstante, olhava firme nos olhos do outro e assentia, e esperava, já um pouco impaciente, pela frase que, ainda que tardasse, não falharia.

Conforme ouvia os números das finanças da empresa, que dançavam entre seus pensamentos vadios, girava e girava o copo nas mãos e pensava se devia ter ficado meia hora a mais naquela sexta feira, para terminar aquele relatório, ou se era melhor assim, mesmo, e que se danasse. Perguntou-se se a dança numérica e o que ela certamente significava ou significaria era algo ruim ou bom, e perguntou-se se isso fazia alguma diferença, mas surpreendeu-se ao ver que não, porque no final das contas, a vida é sempre a mesma, sempre a mesma.

Por fim, ciente de que não tinha nada a perder, deitou o copo em gesto dramático sobre a mesa, ergueu-se sem se importar em arrumar o terno e dirigiu-se ao chefe, ou ex-chefe, ou futuro ex-chefe e disse Certo, então eu estou demitido, não é mesmo?, e estava, e era.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Paulista

Ele veio andando pela avenida, todo chique e elegante, jeitoso, mesmo, mas dava para perceber que estava completamente embriagado. Só que não era por causa da bebida, não, porque ele estava tomando uma limonada e eu posso jurar por Deus que não tinha uma gota de álcool lá, porque, Jesus, eu saberia. Mas o jeito que ele olhava para tudo, e veio e se sentou no chão ao meu lado — e eu não vou mentir, não: estou já é bem velha e acabada e nos meus trapos e ele, naquelas roupas finas, sentando do meu lado! —, era claro que ele estava bêbado.

Primeiro, ele ficou quieto, mas eu percebia que ele me olhava de canto de olho. A gente, mulher, percebe, sabe? Ele olhava, assim, mas disfarçava. E eu já estava me incomodando, porque quem ele pensava que era para sentar ali, no meu canto e ficar, só, sem fazer nada, me olhando de canto de olho?

Mas aí passou o negão, e ele costumava esmolar por aqueles cantos, também, porque eu já tinha visto ele por ali várias vezes. Passou e olhou pro patrão do meu lado e pediu qualquer coisa, mas o patrão não deu nada, só levantou a mão assim, como por instinto. Depois, quando o negão já tinha ido embora, ele murmurou algo como puto miserável, sujo de merda e no começo eu me confundi, porque pensei que ele estava falando do negão.

Mas aí, meio que pra compensar, mas também um pouco para provar que eu tava errada, ele virou pra mim e estava rindo assim, bem esquisito. Aí ele apontou para os prédios e falou nossa nossa nossa, e não parecia que era ele, o patrão fino de roupa chique que tava falando. Porque eu esperaria que ele falasse assim:

—Nossa, nossa, nossa!

...mas ele falou nossa nossa nossa, mesmo. Aí ele estava falando comigo, então eu fiquei olhando enquanto ele apontava para os prédios e falava você tá na maior avenida da maior cidade do maior país da América Latina, cada prédio desses é uma peça de um motor de um carro que é um continente, e aqui estão os teatros e cinemas e cada banca dessas que tem mais livros bons do que muita biblioteca, e falou mais um monte de coisa sobre poesia e sobre a vida noturna, ou seja lá o que for.

E como ele falava sem parar, eu ficava olhando assim, e rindo porque no fundo ele tava falando muita coisa boa, mas não boa pra mim. Bom mesmo foi que ele levantou e me deu cinco reais e até agora eu não entendi nada do que aconteceu, mas guardei o dinheiro bem, no bolso, enquanto ele saía andando, rindo e ainda mais bêbado.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Parte IV – Traição

Durante todo o percurso, Heitor não se perguntara porque havia ido de metrô. Antes, ele achara que pensaria nisso, e mesmo agora enquanto saía da estação camuflado pela multidão, o assunto vinha à sua mente, mas durante o percurso, somente pensava no calafrio que lhe subia pela espinha.

Talvez por pensar nisso, talvez por não estar acostumado à região, saiu andando para a direção errada. Imediatamente, percebeu o erro, mas por alguma razão, não quis reconhecê-lo diante dos outros, em uma vergonha que talvez não existiria em outro dia qualquer. Sabendo que estava naquela estação por um motivo obscuro, não quis admitir outra falha — esta em sua orientação, aquela em seu caráter — diante de todos.

Assim, andou ainda alguns passos na direção contrária à pretendida, xingando-se a cada passo, sabendo que cada metro andado apenas tornaria mais longo seu caminho na volta. Por alguma razão, os xingamentos a tal atitude lhe vieram à cabeça de forma um tanto erudita, em contradição a seus pensamentos normalmente chulos.

—Que figura idiota, andando para o lado errado, andando na contra-mão de seus interesses! Que pessoa estúpida, ridícula, embaraçosa; que criatura desprezível e vil; que ser repugnante, que anda na contra-mão da moralidade, e ainda o faz de maneira tão impensada! Que cede aos impulsos, que se deixa levar pelos instintos! Sujo, sujo, sujo!
E ainda outra voz lhe sussurrava no ouvido, em tom ainda mais antiquado:
—És tu, és tu.

O conjunto de seus pensamentos era, porém, tão ridículo que ele ignorou o momento de autodepreciação, atravessou a rua, contornou um quarteirão e pôs-se, sem que ninguém o notasse, de volta ao caminho correto — ao menos no que dizia respeito aos seus interesses, senão no da moralidade. Logo, podia enxergar o bar em que o encontro fora marcado, ainda distante algumas quadras.


Fora mais fácil do que ele imaginava, marcar o encontro. A lembrança das conversas eternizadas no papel teve um efeito surpreendente sobre Laura, que não escondeu por muito tempo o desejo de reviver momentos como aqueles. Dois dias depois, marcaram a data e o local em que se veriam após tantos anos. Depois, foi necessário apenas inventar uma desculpa para a esposa.

A esposa. Pensar nela agora, enquanto apenas algumas quadras o separavam do local em que, pela primeira vez desde o começo do namoro, encontrar-se-ia com outra mulher, era particularmente doloroso. Pensar no fato de que aquela era sua primeira escorregada desde o começo do namoro doeu ainda mais e a dor fez Heitor duvidar.

Duvidar era um problema. Porque suas pernas tremiam e ele xingou a esposa em pensamento, por não conseguir se controlar. A esposa fora particularmente amorosa no café da manhã, e aquilo era muito irritante. Por que ela não entendia? Por que não enxergava? E se enxergava — deveria enxergar, não é possível que fosse tão cega —, por que agia daquele modo, por que se esforçava tanto para que tudo desse certo?
Era o tipo de atitude que ela costumava tomar. Exatamente a postura burra e irracional pela qual Heitor se apaixonara.

Ele parou.

Não era hora para isso, mas ele não pôde continuar. Faltava tão pouco, agora, ele sabia, mas não conseguia seguir em frente. Suava, chorava, sua garganta doía, suas mãos comprimiam-se contra o rosto, suas pernas estavam inseguras.

Sentou-se no chão, pensou mil coisas em um segundo e depois levantou-se e voltou para casa.


Não era exatamente remorso. O que ele sentia pela esposa não havia mudado — ele apenas havia sido assolado pela lembrança dos sentimentos que já possuía. Isso equivalia a uma equiparação da esposa com Laura, já que, ele percebia, seus sentimentos em relação à antiga colega derivavam, também, dessa saudade deturpada, que omite tudo o que há de cotidiano, e nos faz pensar no passado como algo essencialmente extraordinário.

Heitor não estava, de fato, apaixonado por Laura, conforme agora parecia óbvio. Ele apenas se agarrava a ela como uma forma de retomar tempos que não poderiam voltar de outra forma; a idade lhe atingira de forma dolorosa, a memória dos tempos universitários despertara um sentimento até então desconhecido, e a possibilidade de reviver esses tempos por meio de sua antiga paixão lhe parecera tentadora.

A idéia, que lhe parecera tão boa quando analisada no ímpeto de seus instintos, não poderia sobreviver a uma análise racional como a que ora fazia. Abdicar do amor em troca da paixão não fazia nenhum sentido quando o assunto era avaliado de forma mais cautelosa, porque o amor é um fim inevitável a que todo ser humano chega e seria impossível sobreviver sem ele. A rotina, que outrora lhe parecera tão insuportável, agora se apresentava como uma forma de proteção sem a qual ele jamais poderia enfrentar o mundo, devido à própria natureza dos sentimentos impulsivos: eles ardem com uma intensidade tamanha que são capazes de ofuscar todo o resto e, no entanto, consomem-se rapidamente, extinguindo-se antes que se possa tirar deles todo o proveito que se gostaria.
E era por isso que, agora, andava de volta para o metrô e ocupava novamente uma cadeira em que poderia se manter o mais afastado possível das demais pessoas. Exausto, deixou a cabeça tombar sobre o encosto — demasiado baixo, demasiado incômodo — da cadeira do trem, enquanto observava, quase sem perceber, as paredes do túnel passando alucinadas pelas janelas do vagão.

Voltava para casa.


Quando chegou, estava em frangalhos. Seria justo que a esposa, surpreendida pela volta precoce do marido, estivesse com outro homem no momento. Seria o mais correto, e cada lágrima que o marido derramasse então escorreria com merecimento.

No entanto, a esposa estava sozinha, lendo um livro. Recebeu o marido com um abraço e não insistiu quando ele não conseguiu explicar o que houve. Ali, Heitor teve certeza de que tomara a decisão correta ao desistir do encontro. Viram televisão juntos, como há tempos não faziam, jantaram fora, foram um casal novamente.

A vida podia, mesmo, ser maravilhosa. E ainda assim, como que para justificar o título do texto, no bar acertado, na hora combinada, ninguém esteve a esperar por Heitor.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Parte III – Amor real, paixão virtual

Naquele dia, apesar da ansiedade, não teve pressa em sair do trabalho. Voltou para casa tarde, fingiu-se de cansado, falou pouco durante o jantar. Escondeu a pasta do trabalho logo que terminou a refeição, sentindo um medo irracional de que sua mulher pudesse revistá-la, encontrando o caderno com as conversas; depois, sentou-se para ver TV e esperar o tempo passar.

Talvez percebendo alguma mudança no relacionamento, porém, a esposa apresentou-se convidativa, sensual. Sentou-se próxima a ele vestindo uma camisola que ele apreciava, e que em outros tempos teria chamado sua atenção imediatamente. Nesse dia, ele não parecia muito interessado, mas acabou cedendo. Levou-a para o quarto e a possuiu pensando na outra, esperou que ela chegasse ao clímax, mas, quando foi sua vez, sentiu-se abatido e culpado.

Por fim, quando ela beijou-lhe a face e perguntou-lhe como havia sido, ele quis chorar. No entanto, apenas respondeu que Foi bom, e pra você?, mas não prestou atenção na resposta. Fechou os olhos e viu o rosto de Laura a condenar-lhe. Depois, odiou-se e culpou a esposa por seu ódio. Culpava-a por amá-lo em uma situação como aquela, por ser incapaz de ver que as coisas não poderiam estar certas. Que seja, pensou, em breve estarei no computador a dedicar-me a uma paixão que valha a pena.


Mais tarde, após terem se banhado separadamente, a esposa deitou-se e chamou Heitor para acompanhá-la. Ele disse que não, que havia algo que precisava fazer, mas que em breve haveria de deitar-se. Foi, então, para o computador, conforme vinha fazendo desde aquele dia — o dia do show.

Naquela ocasião, duas semanas antes, ele criou um perfil novo em um site de relacionamento (porque, obviamente, não queria que suas conversas com Laura se misturassem com as com a esposa), encontrara o perfil da antiga amiga no mesmo site, descobrira seu e-mail atual e outros dados úteis, como o fato de estar solteira. Mandou a ela uma mensagem através do tal site, na qual dizia que sentia saudades, que encontrara fotos antigas, que era uma pena terem perdido contato.

Achou que seria só isso por aquela noite, mas surpreendentemente, a moça estava online e respondeu quase imediatamente. Não foi uma resposta calorosa, mas a conversa logo encaminhou-se, cheia de seus Por onde anda?, Que tem feito? e similares. Por fim, surgiu o convite pelo qual Heitor esperava, e ele ficou feliz ao perceber que não fora ele quem fez a proposta. Foi, de fato, a moça quem sugeriu que eles se utilizassem de um programa de bate-papo — um Messenger — para poderem falar-se melhor.

Durante todo o tempo, um calafrio percorria a sua espinha, conforme mentia descaradamente para a amiga. Disse que era solteiro, que estava na Internet porque uns amigos cancelaram — de última hora — uma partida de futebol, que seu perfil no site de relacionamento estava vazio porque acabara de ser criado (o que não é de todo falso, pensou). O calafrio, porém, não vinha de suas mentiras a Laura, mas da grande mentira à esposa. Era um calafrio delicioso.

Os dias se passaram e a sensação foi se tornando cada vez mais fraca — visto que o medo diminuía —, mas não menos prazerosa. As conversas se tornavam mais interessantes conforme a intimidade ia crescendo, e Heitor cuidava para que os sentimentos outrora partilhados pelos dois — sentimentos de paixão, não de amor — viessem à tona recorrentemente. O segredo era não parecer insistente demais, mas ao mesmo tempo não deixar o assunto morrer.

Por fim, conforme o fim da segunda semana ia se aproximando, como ele teve o prazer de perceber, Laura também já contava as horas para os encontros noturnos, em que diálogos cada vez mais acalorados eram travados. Só seria preciso mais um empurrãozinho para que um encontro fosse marcado.

E agora Heitor tinha no caderno com as conversas uma arma secreta.