sexta-feira, 11 de julho de 2008

terça-feira, 8 de julho de 2008

Q, w, e, r, t...

As letras tremiam. Q, w, e, r, t. A, s, d, f, g. Mas tremendo e tremendo, porque ele olhava para o teclado e os olhos tremiam porque ele tremia. Era a perna que tremia e levava o corpo todo junto e as letras acabavam tremendo na medida em que elas eram o que ele via. Eram um problema, e ele tinha que escrever, mas não sabia como começar e por isso tremia, e por tremer não escrevia. Prazos, esses é que eram o problema.

Prazos e mais prazos e contas e trabalhos e encontros e datas e agora aqueles formulários cheios de números que pareciam não ter fim nem meio, mas tinham prazo e era curto.

Só conseguia olhar para o teclado e balançar balançar balançar as pernas, balançar balançar e o prazo cada vez mais curto e as pernas cada vez mais rápidas e as letras que tremiam e dançavam e então ele parou.

Levantou, disse que ia tomar um café e nunca mais voltou.

sábado, 5 de julho de 2008

Divisões inexatas

Nadar às vezes é cansativo, às vezes é entediante. Aí eu costumo pensar em metas. Nadar 800 metros pode ser demais, mas que mal há em nadar cinquenta?, e depois mais cinquenta e mais cinquenta... A melhor forma de não parar é justamente essa, a de dividir as grandes metas e ir fazendo só mais uma, só mais uma, ad eternum ou ad nauseam.

Nas outras coisas da vida, é igualzinho. Só que eu nunca sei quantos metros faltam.

domingo, 29 de junho de 2008

Estilos - I

Marco veio de trem, e era noite, porque quando você não tem estilo, você não tem nada. Ele respirou fundo e viu o vapor que siu de sua boca. Estava frio, também. Mas isso não era questão de estilo.

Era má-sorte.

Ele sabia o que estava fazendo, mas isso não significava que não tocava os bolsos de tempos em tempos. Para se certificar de que elas ainda estavam lá.

Entrar na casa foi fácil. Sempre era. Esperar é que era inconveniente, mas dessa vez quase não demorou. O outro chegou cedo.

Toni era grande e forte e, acima de tudo, esperto. Os anos no serviço tinham-lhe ensinado muito e ele percebeu logo que alguma coisa estava errada. Mas quando viu as armas brilharem no escuro, era tarde. Duas balas o atingiram como coices. O impacto foi tamanho que Toni foi atirado para fora da janela, junto com os estilhaços.

O trabalho tinha sido perfeito. Mas ainda estava frio, e Marco ainda tinha que voltar de trem.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Recicle! — Uma proposta.

A arte é expressar, e embora Fernando Pessoa dissesse que o que se expressa não é importante, ninguém haverá de negar que duas coisas que expressam mensagens diferentes só podem ser — se forem — duas formas diferentes de arte. Explico: se houver duas obras e em ambas for reconhecido o valor artístico, e se ambas expressarem mensagens que divergem, elas só poderão ser obras de arte distintas, desde que se tenha — e tenho — como inegável que o importante da arte é expressar.

Também só pode ser verdade que ninguém no mundo, ou pelo menos ninguém que reflita o suficiente sobre isso, diria que a obra do artista dadaísta Marcel Duchamp é exatamente a mesma coisa que uma privada que alguém colocou em uma exposição, ou que todas as fábricas de privadas produzem arte da mesma sorte que a dele. Ninguém pode dizer isso porque ainda que a obra de Duchamp seja uma privada exatamente igual à que é feita nas fábricas, ela expressa algo que nenhuma privada jamais expressou. Indo além, eu poderia dizer que a autoria da obra só pode ser de Marcel, ainda que ele não tenha efetivamente criado a privada, porque foi ele quem fez com que aquela privada expressasse um protesto anti-racionalista, quiçá desconstrutivista: retirado de seu âmbito cotidiano, o penico bem poderia ser uma fonte.

Note que, uma vez tendo ele obtido acesso à privada, nenhuma fábrica do mundo ousaria cobrar de Duchamp pelo direito de expô-la ou de transformá-la em arte ou de dar a ela o significado que fosse. Da mesma forma, nenhum vendedor de tinta ou de tela cobrará porcentagens das vendas de um Monet ainda que a tela tenha tido importância para que Monet pudesse expressar sua arte.

Que ninguém afirme, agora, que esse tipo de mudança do significado das coisas está preso às coisas tangíveis. A mudança de uma palavra ou mesmo uma vírgula pode alterar todo o significado de um livro, e ninguém haverá de negar isso, bem como ninguém haverá de negar que a entonação que se dá ao que se diz pode alterar todo o significado de um discurso e um contexto diferente pode transformar uma frase e assim por diante. Em verdade, eu diria que o mesmo conteúdo, se proferido pelo radical de esquerda ou pelo militante de direita, pode pular do mais entusiasta para o mais jocoso dos sentidos, ainda que não se mude em absoluto qualquer palavra ou tom ou o que quer que seja: a mudança do artista bastaria, então, para que mudasse a arte.

É ridículo que se pretenda limitar a criação de uma pessoa porque ela usa como base parte de obra já feita, desde que essa pessoa saiba dar ao que já era um significado que jamais fora. Não há prejuízo quando se cria o novo; só há prejuízo quando se impede o novo de ser criado. Que Duchamp pague pelo seu penico, vá lá, que ninguém aqui quer defender o roubo de nada; mas inibir a exposição d’A Fonte ou cobrar por ela qualquer coisa além da privada em si é ultrajante.

Peguemos as obras, brinquemos com elas e elas serão nossas! John Locke, ao mesmo tempo em que fundamentava as bases teóricas da propriedade privada, já não dizia que é propriedade do homem tudo o que é alvo e resultado do seu trabalho? Tudo o que o homem transforma através de seus esforços? Ah, não se acanhe! Pegue e não tenha vergonha de dizer que pegou; mude e transforme.

Recicle!

domingo, 22 de junho de 2008

Citação

"O trabalho priva o homem de três grandes coisas: o ócio, o vício e a beleza."

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Outra metamorfose

Nos últimos doze anos, Bruno não dormiu mais do que cinco ou seis horas por noite, mas na última semana é que as coisas ficaram feias de verdade. Passara toda a noite de segunda no escritório, e não dormira mais do que três horas na terça. Na quarta, a mesma coisa e, na quinta, enquanto arrumava a gravata às quatro da madrugada, ainda mole e dormitando, ainda com os olhos ardendo e pesando e com o cabelo todo arrepiado do banho que não valeu (porque todo mundo sabe que banho de manhã tem função mais de despertar que de limpar), para ir novamente trabalhar, ele reparou com desgosto nas olheiras fundas.
Além disso, não se lembrava de jamais ter sido tão magro quanto àquele ponto. Pudera, não tendo mais tempo para comer direito e se limitando a qualquer porcaria uma vez por dia. Por fim, conforme já saía do banheiro e da casa, agora acordado, e entrava no carro correndo e correndo batia a porta e acelerava sem nem ter posto o cinto ainda e saía no escuro, pensou em quanto estava pálido, ficando de noite a noite trancafiado, vendo o sol pela janela, quando muito.
Mas a vida é assim, e a empresa estava crescendo e tudo mudaria em breve, e ele até poderia tirar férias. Talvez.
No entanto, à tarde sua barriga doía, e quando ele se levantou para tomar um café, sentiu uma tontura que quase o desequilibrou, e bambeou bambeou, e se apoiou na própria mesa. Porém, acabou derrubando os lápis e livros e coisas, e a mão escorregou e ele quase tomba, mas se segura. Pálido, pálido, os olhos afundados e a barriga vazia, levantou de novo e foi meio escorado em direção ao banheiro, mas no caminho havia a janela, e quando tropeçou bambeou, tombou e só sentiu o vidro cedendo ao empurrão e a janela abrindo e o vento vento vento ven...
E foi então que Bruno virou um morcego e voou dali.