segunda-feira, 8 de junho de 2009

Ele sabia que tinha tudo o que queria,

que era nada. Era let it be bem alto, a noite toda e dormindo tranquilo, era ficar deitado vendo o ventilador girar, girar, girar. Só que ele tinha que sair, então ia, ao cinema, ao teatro. Não tinha como não conhecer Bia. Ele ainda era let it be, ainda era o olhar no ventilador. Ele sabia que podia ser isso pra sempre e era só deixar as coisas como estavam. Mas aí, com o telefone já na mão, o número já discado, a coragem já tomada, era tarde demais.

sábado, 6 de junho de 2009

Citação

"My love for Linton is like the foliage in the woods; time will change it, I'm well aware, as winter changes the trees. My love for Heathcliff resembles the eternal rocks beneath--a source of little visible delight, but necessary."

(Catherine, in Wuthering Heights, de Emily Bronte)

terça-feira, 2 de junho de 2009

Foi Gustavo quem me chamou para morar na república,

mas quando eu cheguei lá, todos estavam, menos ele. Todos eram Laura, Alex e Joana. E agora, eu. Eu era Rodrigo e Fernando, eu era todo mundo. Eu era todos os que sentem vergonha ou o desconforto de estar e não ser. As pessoas gostam de substantivos, como se as pessoas ou as coisas fossem elas mesmas, quando na verdade nós muitas vezes somos um tempo, um verbo. Eu era, portanto, entrar, corar, pedir licença.
Laura e Joana ficaram olhando e não disseram nada, enquanto Alex parecia não ligar para mim, então eu disse oi e o meu nome, e contei da oferta de Gustavo, me surpreendendo quando Alex perguntou se então eu ia morar ali. Ia. Ele assentiu, elas voltaram ao que quer que estivessem fazendo e foi só então que, enquanto levava minhas coisas para um dos quartos, eu me senti em casa.
Eram dois quartos, na casa, então supus com razão que eles eram divididos entre o masculino e o feminino. Ajeitei minhas coisas no quarto que Gustavo até então dividia com Alex e, na falta de uma terceira cama, estendi um lençol sobre um sofá velho, que me seria mais do que suficiente. Experimentei deitar e testar as almofadas, que me pareceram confortáveis o bastante. Depois, quando me levantava, Gustavo entrou, feliz pela minha aparente adaptação à nova casa. Então, ele perguntou o que achei. Respondi um ótimo ótimo e joguei novamente a cabeça para trás, soltando-me sobre o sofá e provando o que dizia. Ele ficou satisfeito, e me chamou para a sala, onde eu finalmente teria uma chance de conversar com meus novos companheiros de casa.
Joana ainda era Joana, ainda era uma pessoa silenciosa e arisca, ainda me olhava com alguma indiferença enquanto costurava alguma coisa. Essa era ela e não era exatamente hostilidade o que ela me direcionava, ao contrário de Alex, que claramente também era ainda Alex, e me evitava abertamente. Laura era quem mais havia mudado e agora falava comigo de forma quase franca, demonstrando um humor muito próximo ao de Gustavo, o que, a essa altura, muito me agradou. Ela pegou um violão e os dois insistiram muito para que Alex o tocasse, então foi logo no primeiro dia que eu formei a imagem que guardaria por todo o tempo que se seguiu como sendo a de meus companheiros: Alex encostado na parede, o violão tocando uma música que eu não conhecia; Joana deitada de bruços com a cabeça apoiada nas mãos e os pés erguidos para o ar; Gustavo abraçando as pernas, sentado; Laura olhando vidrada, quase sem se dar conta de que sorria, e por muito tempo eu me perguntei se era a visão em primeira pessoa o que me impedia de fazer parte da cena.

As tarefas se dividiam, louça num dia, lixo no outro, as despesas, idem, e assim é que vivíamos. Depois que cheguei na casa, que ficava a mais de cem quilômetros de qualquer coisa, mais de um mês se passou antes de eu sair dali para qualquer motivo que não fosse comprar comida, materiais de higiene e qualquer coisa que fosse necessária na casa, mas essas coisas nós comprávamos numa mercearia não tão distante, de forma que ninguém havia ido para a cidade propriamente dita durante todo esse período. Até onde eu podia saber, mesmo antes de minha chegada era assim que viviam e a única ida à cidade de que tomei conhecimento foi a própria viagem de Gustavo, quando de minha chegada. Calcula-se: éramos todos novos e confinados, bebíamos e nos amávamos, tínhamos-nos por irmãos e companheiros.
Durante três semanas, sentávamos no chão da sala e Alex ou eu tocávamos alguma coisa no violão (em geral ele, que era mesmo melhor) e abríamos garrafas de vinho tinto ou de cachaça artesanal, e Laura dançava, e Gustavo dançava e eu dançava. Por fim caíamos, de sono, de bêbados ou de dançar, no chão da sala e lá infinitávamos nossas noites.
Já na primeira semana, percebi que ninguém ali se dedicava a nada que não a convivência. Para conseguir o pouco dinheiro que tínhamos, Joana escrevia poesia, Laura e Gustavo pintavam e Alex compunha modinhas e músicas populares, e as poesias eram nós, as telas eram nós, as músicas eram nós. E eu tinha meu notebook e fazia trabalhos freelancer de design.
Em tudo, acho que éramos assim. Eles eram eles, eu era quase. Inicialmente, achei que Alex havia visto em mim um rival, o que não seria absurdo, embora eu não admitisse à época. Hoje em dia talvez tenha uma ideia melhor do que de fato acontecia, e se for este o caso, afirmo aqui que o receio que ele demonstrava se assemelhava menos à competitividade entre machos do reino animal do que à xenofobia. Eu nunca consegui deixar de ser um estranho, ali, por mais que nenhum de nós se desse conta disso; eu era uma lembrança constante de que havia um mundo lá fora; de que a vida não era só uma casa com vinho e música e artes. Como eu disse anteriormente, não era assim que eu entendia as coisas à época, assim como provavelmente não era essa a interpretação de nenhum dos demais, mas me parece suficientemente verossímil enquanto teoria, e funciona bem como metáfora. Ademais, serve como ligação com as coisas que aconteceriam depois, quando tudo mudou.

Alex ainda se recusava a abrir-se comigo, mas não pôde esconder quando começou a enamorar-se de Joana. Apesar de ter dito, e não menti, que nos amássemos, aquele foi o primeiro envolvimento afetivo, no sentido que talvez outro daria à expressão, entre pessoas da casa. Depois, muita coisa mudou.
Primeiro, tivemos que mudar a organização dos quartos, de forma que Laura passou a ficar comigo e com Gustavo. Essa questão, porém, foi secundária. Depois que passaram a estar juntos, Joana e Alex começaram a frequentar a cidade diariamente.
Como crianças novas demais, os dois demonstravam uma sede enorme de ver tudo quanto havia na noite urbana, ansiavam por ir a cinemas e teatros, a restaurantes e boates e, também como crianças, voltavam para casa à noite escondendo, por meio de relatos incríveis, a frustração por não conseguirem realmente pertencer àquele meio. Sim, adianto-me às adivinhações que decerto surgem da forma como dispus os fatos, e confirmo que me senti vingado quando percebi a forma como Alex e Joana agora se sentiam frente ao mundo que se lhes impunha. Ouso dizer mais: que foi desse meu sentimento de vingança que começou a nascer minha atual compreensão da minha situação estrangeira na casa, e não errará quem estipular que eu aproveitei os novos fatos para tentar reverter minha condição.
Foi quando soubemos, por meio dos aparentemente entusiasmados Alex e Joana, que haveria na cidade uma festa noturna de rua, uma espécie de carnaval fora de época. Animados com a recente euforia metropolitana de Alex e Joana, Gustavo e Laura se interessaram em participar da festa, o que gerou uma situação quase conveniente demais para que pusesse em prática meus planos de aumento de popularidade e intimidade com meus companheiros.

Foi estranho pisar novamente nas ruas esburacadas, nas calçadas tortas. Foi estranho estar novamente entre milhares, ao invés de cinco. A cidade ainda era linda. Imaginar aqueles jovens outrora reclusos se movendo pelas ruas escuras, pelas calçadas esburacadas e pelos corredores abarrotados de gente, imaginá-los entrando em bares, desviando-se de automóveis, trombando com desconhecidos, imaginá-los usando banheiros químicos e dançando ao som de trios elétrios, pode ser desafiador, e se serve de consolo ao leitor, confesso que mesmo visualizar as cenas me foi custoso. Eles eram tímidos, mas não podiam evitar que se destacassem dos demais, e eram maravilhosos e eu os amei demais naquele momento. Eu, se não completamente afeito à situação, era ao menos o mais descontraído dos cinco, mas ainda me doía que não me seguissem. No começo, achei que fosse o entusiasmo, ou essa necessidade que aqueles que se encontram artificialmente em uma determinada posição têm de legitimar que ali estejam ainda que para isso tenham que agir de forma exagerada, muitas vezes forçando uma autoridade maior do que a daqueles que ali nasceram. Essa teoria me explicava o por quê de não recorrerem a mim, mas logo meu incômodo se tornou demasiado.
Não me ouviam (nem Gustavo, nem Laura!), não me incluíam nas conversas entre eles ou com estranhos, não me procuravam quando me desgarrava. Por três vezes fomos obrigados a parar e pedir informações e nas três vezes fui eu quem conseguiu as melhores respostas. Só por isso é que, em uma quarta ocasião, Alex virou-se para mim e perguntou se será que eu poderia ver isso com aquele grupo, porque por algum motivo eu me dou bem com essas pessoas, e foi então que eu fiquei realmente nervoso e falei girando no meio do grupo (porque falava para todos, e não apenas para Alex) que é óbvio que eles se dão melhor comigo porque eles são eu e tudo o que vocês procuram aqui sou eu e eu estou com vocês o tempo todo, mas eu não entendo por quê eu não sirvo.
Eu estava girando e também bêbado, e eu via todos eles, menos Alex e Joana que já não estavam lá (teriam ido perguntar, teriam...), eu via todos, Gustavo, eu via Laura do lado dele e eu no meio e eu via a forma como ela me olhava e foi então que eu entendi.

Depois, não sei bem. Acho que tive um branco, um apagão. Talvez eu só não me lembre. Lembro de Laura, depois. Gustavo foi comprar cerveja, eu acho, ou ao banheiro, ou talvez ele estivesse ali, mesmo, e eu é que não via. Eu falei para Laura que eu tinha entendido, eu falei que eu estou perdendo, não é, e ela disse que sim. Eu disse o jogo, não é, e ela disse que era. Depois eu vi Gustavo, ou então ele voltou. Depois a gente estava em casa, tanto faz. Quando eu cheguei eram quatro pessoas, depois dois casais viraram o mundo. E eu perdi.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A vida não é o bastante (13/10/08)

Se tivesse que pintar-se, pintar-se-ia o Artista qual cavaleiro ou qual florista, mais alto do que belo, mais belo do que forte; dar-se-lhe-ia roupas do medievo e um aspecto — de que sorte? Imponente?, intrigante?, inteligente, certamente. Quando andava assobiava, canário, e ria-se e via-se que seguia sem destino nem caminho, que o mundo lhe era cenário, tão somente dele não era parte; apenas retratava-lhe a Arte.
Subia a rua o Artista, o olhar clínico, o pincel cínico na mão e um faro que o levava para onde a Arte poderia estar, e parou na praça, sabendo que ia pintar. Amarrou o cachorro, montou o tripé e começou o trabalho. Ao seu redor, uma mulher com os filhos, um vendedor de qualquer coisa, velhinhos, um baralho, as coisas de sempre.
E era aí que estava seu diferencial, era isso que lhe dava a maiúscula, era esse seu dom de olhar e enxergar o que queria, e podia ser um canto de algum pássaro ou de algum prédio, sempre havia alguma coisa que lhe apontava algo mais no dia a dia, onde outro qualquer, nada veria. Então, pintou pelo resto da tarde, e nenhum dos presentes reconheceu a paisagem pintada e julgaram-no louco, porque nenhum via a Arte que ele retratava. Viam nos prédios, pedras; nos pássaros, penas, apenas. Porque vazios, viam vida, e era pouco.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Um post demasiado bunda-mole

A bala é um comprimido de metal não maior do que um dedal rodopiando. O furo é menor do que uma moeda de 10 centavos; se você não soubesse, nem notaria. Atrás é que o impacto faz o estrago maior e são crânio, miolo, sangue na parede.
Sangue na minha boca, sempre gostei do sabor, mas agora... Sinto vontade de compartilhar com você. Você percebe, é claro, e me beija para sentir o gosto também, mas acho que não é só isso, talvez seja essa sua mania de concluir as coisas, talvez você só queira dar um beijo que sabe ser o último.

Esse sou eu, obviamente antes. Você ainda não está lá, mas não deve demorar. Veja: eu manobro o barco e desço no cais e lá está você, próxima ao muro, meio escondida, porque somos só nós dois, sempre só nós dois, desde que tínhamos o quê? Dez, onze anos? Não mais do que isso.
Na época eu achava que me doía ver você tão sozinha, tendo que deixar sua família por mim. Pensando agora, acho que eu nunca me senti culpado de verdade. Você sabe que nós nunca tivemos por quê nos desculpar, e na época eu acho que a minha raiva de tudo ainda não havia se desenvolvido tanto, eu acho que as coisas entre nós eram maravilhosas demais para eu perceber. Por isso é que foi só quando as coisas se radicalizaram, quando os do nosso tipo passaram a ser perseguidos (e nçao só histilizados), só então é que nossa história começou.
Eu me lembro de ficar bravo porque você sempre foi mais criticada do que eu, só porque eles achavam que você não havia nascido assim, havia escolhido depois, por minha causa. Como se isso fosse coisa que se escolha! Eu me inconformava, você se lembra, eu achava odioso, e agora, quem diria?, você vem e me mostra que não, que foi melhor eles terem pensado assim! Que pelo menos um de nós pode se salvar e basta que ninguém jamais descubra que, por essa sua teimosia besta, você decidiu me dar um último beijo, ainda com a arma quente na mão.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Um post demasiado pessoal

Acho que é normal as pessoas mudarem. Acho que é bom. Encontrar alguém, pra gente, pra sempre. Pra justificar tudo. Mas eu vi seu quintal e tinha lixo, e tinha mato no seu jardim e o pior de tudo era que o pomar estava limpo e lindo e dava limão no limoeiro, mas pra quem? Eu não colhi, ninguém colheu. Era você que tinha que colher.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Somos todos sádicos

Porque amamos;
E sofremos e choramos, (Nós sabemos o quanto dói.)
E ainda quanto fazemos para que nos amem!