quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Saudades (22/03/2008)

Ah, que a saudade bate todo dia
De quando usar terno ainda era
Pra dançar, e não rotina
Era 15 anos, aniversário, festa

Ah, que a saudade bate todo dia
Que é porque o tempo vai passando
E claro que a saudade já batia
Mas era só de vez em quando

E até acho que a vida é melhor
Agora do que era antes
Acho que quando se é maior
Já vivemos tantos mais instantes

Que a saudade só pode bater tanto
Por serem tantas as coisas passadas!
E então, temo o dia quando
Viverei de horas idas lamentadas!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O telefone de volta no gancho. A trezentos e setenta e cinco quilômetros, será que ela também chora?

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Na verdade,

não teve nada a ver com sexo. Nada a ver com tesão. A gente tinha uns quinze anos, só. Eu estava com ela no parque e a gente ficava conversando penduradas no trepa-trepa, até que ela me provocou com alguma coisa e eu dei um empurrão mais forte e ela caiu no chão. Eu corri pro lado dela e segurei na mão dela e pedi desculpa desculpa desculpa, pelo amor de Deus me desculpa, e ela deu um risinho pra mim e disse que tudo bem e foi então que eu entendi.

Acho que é igual com todo mundo, não sei. É claro que as pessoas querem sexo, mas elas também querem apoiar a cabeça no ombro de alguém, ter uma mão para segurar, ter um corpo pra apertar. Eu também queria, mas até aquele momento eu nunca tinha percebido que era daquele jeito. Achar que alguém gosta de homem ou de mulher ou do que quer que seja por causa de orientação sexual me parece uma ideia absurda desde aquele momento. Então, eu passei as mãos nos seus cabelos pretos e limpei um pouco de terra do rosto dela e fiquei me perguntando o que eu faria pelo resto da minha vida.

Acabou que eu passei uns anos sem saber o que fazer. Ela passou, vieram outras e eu me lembro de mim mesma trancada no meu quarto rindo, chorando, gritando quieta. Um dia, quando eu senti que não dava mais, eu abri a porta do quarto e corri pra sala quase sem respirar e chamei a minha mãe.

Eu sou diferente, eu disse pra ela. Acho que eu nunca vou poder deixar de ser.

Minha mãe me olhou com uma cara que dizia tudo, balançou a cabeça e disse que claro que eu era, que todo mundo sabia, mas que agora ela queria mesmo assistir àquele programa, se eu não me incomodava. Eu voltei pro meu quarto em silêncio e me lembro de ter dormido no chão.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Ele ainda entra todo dia no perfil dela no orkut. Mesmo depois de todo esse tempo.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ele sentia a mão suar,

ele sentia as pernas bambearem enquanto esperava, sentado na sala vazia. Havia cinco canetas (três azuis, uma preta e uma vermelha), uma lapiseira com a logomarca da empresa, uma borracha usada até a metade, três clipes (um dos quais, torto), um grampeador industrial, dois blocos de post-it e um caderno velho espalhados sobre a mesa. Havia cento e quarenta e três formas de ligar todos esses objetos utilizando-se de menos de dez linhas retas, cinquenta e oito figuras geométricas podiam ser formadas usando-os como vértices e Fernando tinha quase certeza de que uma delas era praticamente um octágono regular.
Além disso, havia o computador (com manchas pretas sobre o plástico branco, uma das quais lembrando uma visão em perfil do Getúlio Vargas), a cadeira do outro lado da mesa, a pequena palmeira com quatro folhas bem abertas (quase o mesmo tom de verde da borracha meio-usada), uma réplica de algum quadro de Miró em uma moldura preta de extremo mal gosto, e uma plaquinha com o nome do chefe colocada sobre a porta.
Que abriu.
Ah, oi, espero que não tenha esperado muito, disse o chefe do nome na plaquinha e Fernando não se importaria em esperar mais um dia ou dois, mais a vida inteira. Agora, tinha que falar. Vinte e cinco anos. Completados naquele dia. Bodas de prata com a empresa e só agora ele se sentava na cadeira em frente ao chefe com as mãos suando e as pernas bambeando e a cabeça contando coisas, calculando contas, criando catetos e – eu estou me demitindo, ele disse de uma vez e o resto da conversa foi o chefe quem levou.
No começo, ele gostava, mesmo, ou achava que gostava do que fazia na empresa e agora já não saberia dizer quanto tempo fazia que estava ali só por medo de dizer tchau. E bênção.
No fim, não foi tão difícil e ele aproveitou o ensejo para dizer ao colega com quem dividia a sala que também nunca mais voltaria ao clube de leitura aos sábados, que também disso se demitia. Enquanto se divertia com os olhares perplexos de todos, ajeitou as últimas coisas que tinha sobre a mesa, colocando-as na mochila e desceu pelo elevador e saiu pela porta da frente e entrou no estacionamento do outro lado da rua pela última vez. Pela primeira vez em anos quis colocar alto o volume do rádio e abriu a janela porque quis sentir o vento.
Antes de chegar em casa, ainda passou no clube e na academia e no curso de italiano e cancelou sua matrícula em todos esses lugares. Mesmo assim, ainda eram cinco horas da tarde quando chegou em casa e ele não podia aguentar de ansiedade para dizer a sua esposa, de forma que teve que dirigir até o escritório dela no centro e foi lá mesmo que terminou o casamento. De lá, dirigiu sabe lá Deus para onde, e os boatos de que teria se matado só terminaram quando um conhecido o fotografou sem querer durante uma viagem às Bahamas.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Ela não tinha asas,

não, ela não tinha. Ela usava os cabelos curtos e às vezes, só de brincadeira, saía vestida que nem menino e enganava bem. Ela não era linda, mas ele se apaixonou assim que a viu, ou assim que ela disse bem baixinho que faria qualquer coisa por ele, qualquer coisa que ele pedisse.

Também não era que sua saia fosse curta, era mais a forma como ela andava e as curvas menos se viam que se adivinhavam. Ele ficou parado enquanto ela vinha e lhe sussurrava no ouvido e lhe puxava a gola da camisa.

Ele levaria vinte e cinco anos para entender o que havia acontecido, mas em só cinco minutos já tinha desistido de tentar.

domingo, 6 de setembro de 2009

Eu tinha vinte e sete anos

quando conheci Douglas em uma reunião da minha empresa com alguns clientes. Ele era mais novo e gostava de música clássica e enfiou a mão dentro da minha saia enquanto acariciava minhas coxas no restaurante japonês.
Passamos vinte e dois dias perfeitos naquele julho, e foi num sábado que marcamos um churrasco no térreo do prédio dele. Eu estava falando com umas amigas sobre qualquer coisa, mas fui buscar uma caipirinha e ouvi ele comentar sobre política com uns colegas de trabalho. Foi quando eu descobri que ele votava no Partido Amarelo.
Durante dezenove anos, nós ficamos juntos – eu sempre tentando evitar assuntos relacionados à política quando estava com ele. Uma hora, simplesmente não deu mais.