terça-feira, 2 de agosto de 2011

Reabilitação

Queria ir porque sabia que ela lhe fazia mais mal do que bem, sabia que mesmo os melhores momentos eram só entorpescência e que os momentos ruins qualquer dia lhe fariam enfiar o carro em um poste, talvez matar alguém. Ele não queria matar ninguém, no máximo sentia impulsos semirresistíveis de machucar, mas tinha certeza de que eventualmente aconteceria, de que era uma possibilidade real quando se encontrava com a percepção, os reflexos, a coordenação -- por vezes até a visão -- debilitados.
Mesmo agora, quando buscava com todos os recursos uma desculpa para não ir, para não largá-la, para se afundar ainda mais, continuava achando difícil se convencer de que havia qualquer motivo que o impedisse. No entanto, e de novo, interrompeu-se antes de chegar à porta, suspirou, desistiu. Talvez porque fosse fraco, é claro. Talvez porque fosse forte demais.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Quando tudo mais tiver acabado (não exatamente porque as coisas se esgotem, mas porque são esquecidas, são ignoradas e porque, no fim, todas as pessoas do mundo acabam por fazer algum tipo de desconstrução descartiana e pensar que as coisas, como nossas certezas, são menos sólidas que um peido), eu gosto de acreditar que eu continuarei esperando. Porque todos os segundos de todos os dias, tudo acaba e sobro eu – com medo, claro, e sem nenhuma paciência, mas quase inteiro, quase firme, esperando.

Nem que, de vez em quando, eu precise juntar as mãos sobre as orelhas e fingir o mar; nem que eu precise criar riscos idiotas – é a pressa, é a pressa –; nem que eu corra, o tempo todo, ainda que não tenha para onde ir e ainda que seja justamente da falta de direção que eu corra; não importa. Essas coisas, aguenta-se: corro, mas fico por aqui.

E se tomasse um café? Não precisa ser um café, é claro, alguma coisa qualquer que me tomasse as perguntas, que diminuísse a tristeza preguiçosa de estar triste? Fazem bem os analgésicos? Os antidepressivos? Os remédios em geral? Fazem, fazem, ou devem fazer, mas por que eu sinto que minto com um bem-estar que não é meu, ou que não deveria ser? – afinal, não merecemos mais sorrisos na vida do que lágrimas e não deve ser Correto renegarmos assim uma porcentagem tão grande das experiências que se nos destinam. Isso tudo é só mentira, embora não seja pouco. (Como eu minto, também, quando mudo de eu-literatura para eu-direito ou apenas eu-profissional, porque como é que a gente pode não mentir quando se precisa ser sério e tudo o que se quer é destruir o mundo inteiro, um monstro de cada vez?) (É diferente com o álcool, eu me engano num brado, porque o álcool não me tira o sono ou a tristeza ou a alegria; no máximo, mos ampliam.) Não, não, melhor faço se seguro tudo como vier, ainda que isso acabe comigo, é claro. Melhor, até, que acabe comigo. Corro, mas fico por aqui.

Aliás, por aqui e esperando; que o que me falta em paciência, me sobra em esperança.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Fere-as

Volta e meia eu tenho vontade de fumar, também, de deixar pra lá meus pulmões, minha asma, e também não é que eu tenha alguma curiosidade em particular quanto ao cigarro em si, ou quanto aos efeitos dele (relaxamento? queda de apetite?), mas às vezes eu tenho muita, muita, muita vontade de falar pra alguém Com licença, vou lá fora acender um cigarro, e aí sair e tomar um ar, sabe?, claro que sabe, esquece, porque você não pode simplesmente falar Vou lá tomar uma cerveja no meio do expediente, pode?, não pode e nem teria o mesmo estilo, eu acho, de eu colocar pra tocar Rock’n’Roll Suicide, que tem tudo a ver, também, né?, e aí iria fazendo conforme a música, You pull on a finger, then another finger, then your cigarette, wowowow, e ficaria ao vento, eu e o cigarro, por um, dois minutos, é estranho eu querer isso? Seria melhor, até, se eu não precisasse do cigarro.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Férias

Não adianta se mudar para a praia. Isso não iria mudar as coisas, não iria resolver o problema. Não é o caso de procurar uma outra realidade e se atirar a ela para sempre até que você tenha uma nova rotina, um novo tipo de cansaço de espírito, talvez, mas um espírito cansado de qualquer maneira. Não confundam, amigos, sair da mesmice com transformar algo diferente em convencional. (E que se fodam as revoluções.)



Melhor do que trabalhar com algo de que se gosta, acho, é trabalhar para algo de que se gosta, é dizer todo dia Isto é temporário, é só até eu conseguir ******. Etc. Usar a rotina para a rotina, meu Deus, isso sim é que é triste. Juntar dinheiro para construir um lar, para ter as coisas de que precisamos sempre ou até (ouve-se por aí) para começar um negócio próprio, cruzes, é de atolar a pessoa, mesmo, é de destruir um serumano. Trabalhar pra ir embora, isso sim faz algum sentido. Contanto que se volte, sempre, porque não voltar é como não ter ido.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Frejk de Groot, o homem mais desinteressante do mundo

Frejk de Groot, o sujeito mais desinteressante do mundo, nasceu em Flandres durante a guerra dos cem anos, fato perigosamente interessante a ser incluído nesta biografia não autorizada. Até os dez anos de idade, sua principal atividade era ensinar os cachorros do vilarejo a urinar nas frutas expostas nos mercados ou nos tonéis de cerveja mantidos destampados pelos vizinhos menos cuidadosos, dando o sabor amargo que por muito tempo seria confundido com alguma especificidade do armazenamento de Ale de alta fermentação em barris de madeira.
A partir de então, o relato de sua juventude se complica, visto que alguma incerteza entre os historiadores da época resultou em mais de cento e setenta e cinco relatos de suas mortes nos mais variados locais e nas mais distintas datas. Ele teria sido atingido por uma flecha inglesa (EINEBALD, William, Vinte dias para a vitória, 1358) quinze dias depois de morrer torturado por franceses (HINESTEIN, Friedich, Lista de flamengos mortos entre 1350 e 1450, 1454) e sete meses antes de agonizar em chamas durante o incêndio de Limburgo (GARTIER, Pierre, Como ganhamos Vlaanderen, 1818).
O fato chamou a atenção de Henrique de la Nataña, historiador catalão que desenvolvia um estudo sobre a linhagem francesa dos Tissou, especialmente quando ele notou que a totalidade destas mortes ocorreu antes do ano de 1417, data em que Frejk teria matado Guillaume Tissou às margens do rio Demer.
Aprofundando suas pesquisas, o historiador observou que as versões acerca da morte e da vida de de Groot se baseavam em relatórios semi-oficiais registrados pelo condado em que vivia nos anos entre 1400 e 1437. Tomado por uma feliz epifania, Henrique imediatamente apagou de seus estudos todas as menções ao polimorrente holandês, recitando a desventura aos amigos mais íntimos e concluindo aos risos: Frejk de Groot não passara de um escriba ambicioso e bem humorado, ansioso por ter seu nome escrito (e reescrito) nos anais da História.
Henrique de la Nataña, hoje sabemos, foi o maior difusor de versões incorretas sobre fatos históricos, o que nos enche de otimismo ao lançarmo-nos à vida e à obra do jovem flamengo.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Bem te vi

Mesmo que, de longe, pareça tão sem cor,
alguém me disse que a cidade, por tão bela,
devia ser pintada toda amarela.
E que bonito, que bonito se assim for:

É sempre bom saber que ela está à janela,
ainda que seja assim, ao lado de outro amor:
fica tudo muito bem, enquanto me for
possível amarela, amarela, amarela.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

The Id Anticipation

“1After her parents' divorce, Virgínia went to live with her mother and (as she then believed) stepfather, whom she hated – or tried to hate – because of her sister's accusation of him having torn apart her family. Virgínia couldn't get along with her stepfather, she couldn't get along with her mother – sick and mad, lost in hallucinations interrupted only by few minutes of lucidity – and she certainly couldn't get along with her other family, that is, her father, her sisters and their close friends, Augusto, Conrado and Letícia.
It hurt her to be alone, to be excluded, to be kept out of the dance. Hence, one day, when her mother – and, as she found out, the man who was actually her real father – died, Virgínia went to live with the others, believing she'd finally be accepted as part of the group. She wasn't.
So, she went to a catholic internship school where she couldn't fit as well, but she spent some years there and believed she had grown. This is probably when she started hallucinating as well, because after that the book started to narrate how she became the centre of the dance, how she became disputed by all those who despised her before etc.
Madness or not, fact is she then let herself be led, she bent to the gale, accepting the love and the generosity of whoever was closest. And, of course, she hurt everybody in the end, she left them all out of the dance, ultimately absolving them all”.
The ending is of course the best part of the story, the part that explains all the rest and the title of the book. But it's not what matters to me (right now, that is).
Let's take an imaginary character, whom i'll name L. She lives her life normally, unaware that she was constantly being victim of her neighbors' cruellest poison: she was judged daily.
It wasn't premeditated, but it was a crime: they saw her, her habits, her clothes, her doings. They talked about it. As casually as they talked about the weather, of course, and innocently, too, but they talked and they created imaginary stories and hence, they forced her to live many misadventures of which she wasn't even aware.
It started as mere observation, but soon it grew to be more than that. With friendly tones, people would stop her on the street and say things like Be careful with those scuba diving classes, or Learning dutch is probably not going to help you with your career; you should study french, instead. L. would smile, nod and walk away, but she'd always take some of what was said in consideration. Soon, she'd start seeking those recommendations, instead of passively receiving them. She'd look for approval before every new engagement and wouldn't feel comfortable or safe if she couldn't get it.
Initially, it influenced her decisions regarding potentially dangerous activities, or those which could irreversibly affect her future, so that she'd run to her neighbors or colleagues before going to job interviews or assigning for a certain class at college. However, one day, when L. was asked out to dinner, she ran to her neighbor's door and left the phone still on, over the table. The guy on the other side wondered what was going on as she took a few minutes to pick the phone back up and reply: Pick me up at 8PM.
But dating brings serious questioning. From the outside, deciding when to say I love you may seem less relevant than choosing one's dog's name, but loving has nothing to do with the outside. Hence, L. needed support on her decisions. And, because it has nothing to do with the outside, her acquaintances failed to give them to her. She was helpless and scared; she didn't want to hurt or to be hurt. It was, thus, just natural that P. – let's name the guy this way – would assume this guiding role. Imagine how dangerous this is.
The romance went well, of course. Leading, P. was obviously very satisfied, and i do mean it in every possible way. Being lead, L. was free of worries about their future together or about the pace of their evolution as a couple. In an unnatural way, things worked out.
Outsiders, on the other hand, became a little uncomfortable with L.'s acquiescence to P.'s somewhat liberal guidance. While they still had nothing to do with love, they had much to do with pretty much everything else regarding L.'s life, and their constant criticism to her behavior put her in a situation of indecision. She willed to stick to P.'s command, for it made him happy and kept her secure, but she also feared other people's disapproval. She would commit to his wishes when they were together, only to repudiate them when apart, but she wasn't faking anything: with her judgment displaced to anyone near her, their opinion were hers, no matter how incoherent.
The incapacity to conciliate her actions made her ignore discrepancies and be oblivious to hypocrisies. She payed ever less attention to her doings and thought ever less about her actions, blowing to the wind or, to recall the metaphor, she bent to the gale. She was reed, not oak. And yet, one day, she broke. 

 

1The quote indicates the beginning of a description full of spoilers of the book Ciranda de Pedra, by Lygia Fagundes Telles.