terça-feira, 6 de março de 2012

Dedos, 1

A carta não vinha endereçada exatamente a mim, mas ao "Departamento Jurídico". Como, porém, a empresa era pequena e não se envolvia muito em litígios de um modo geral, as duas coisas eram sinônimas, isto é: eu correspondia à íntegra de tal departamento. Assim, embora meu nome não constasse no envelope, foi a mim que a carta foi imediatamente encaminhada, assim que recebida na empresa e fui eu o primeiro a abrir o envelope e perceber que alguma coisa muito estranha devia ter acontecido, já que, em condições normais, eu nunca deveria ter recebido nada parecido com aquilo.
Dentro do envelope não havia nenhum recado para mim nem nenhum contrato que exigisse validação: havia um dedo humano.
Evidentemente, eu consegui pensar em algumas implicações jurídicas relacionadas ao fato de alguém me ter enviado um dedo pelos Correios --- de imediato, me vieram à mente a lesão corporal gravíssima e a violação das normas dos próprios Correios, que provavelmente não permitem o transporte de partes humanas ---, mas ainda não entendia muito bem o motivo daquilo ter sido enviado especificamente à minha mesa. Que eu me lembrasse, nunca havia feito elogios ao dedo de ninguém e também nunca demonstrei nenhuma inclinação à mutilação ou ao canibalismo (embora Deus saiba as coisas que ocasionalmente me passam pela cabeça).
Chamei a menina ao meu lado, funcionária do setor de atendimento ao cliente --- omito seu nome por medo de lhe trazer problemas. Ela estava no telefone e digitava com muita força, para que a pessoa do outro lado da linha ouvisse e achasse que ela estava efetivamente se esforçando para encontrar as informações solicitadas, embora, na verdade, ela estivesse apenas conversando pelo MSN com uma amiga. Mesmo assim, virou-se para mim inquisitiva e fez com a cabeça um sinal para que eu falasse. Muito embora ela claramente não estivesse prestando atenção ao cliente, fiquei um pouco intimidado pela situação, de forma que apenas indiquei o envelope para ela. Com um levantar dos ombros, ela me pediu mais informações.
"É um dedo", disse eu.
"O quê?", perguntou ela.
"Um dedo."
Ela ficou em silêncio por um tempo e, após pensar um pouco, perguntou: "E de quem é?"
"Não sei."
"Por que não?"
"Porque não sei, apenas recebi um dedo num envelope. Como ia saber?"
"Digitais."
"Boa sorte", disse e entreguei o dedo para ela. Ela guardou o dedo em sua gaveta e retomou a conversa com o cliente, justificando sua demora com uma estranha lentidão do Sistema. Dei de ombros, satisfeito: havia resolvido meu problema e estava livre do dedo.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Carta


Eu devo estar errada. Não seria a primeira vez e, se for o caso, também não será a última, pois haverá ainda um erro a cometer. É por isso que escrevo para ninguém, porque sei que não interessam a ninguém os meus erros, os sofrimentos que eu acho que me afligem quando na verdade --- na verdade há um planeta inteiro povoado por bilhões de corações, todos eles se apertando à noite e impotentes demais para fazer qualquer outra coisa que não torcer para que um novo dia lhes amanheça.
É injusto pensar que somos iguais e é mais injusto pensar que somos diferentes: que eu sou algum tipo de exceção ou que as feridas dóem mais em mim ou que quando me deito à noite --- e minha cama é macia e minhas cobertas são quentes e minha barriga não dói --- estou mais sozinha que qualquer outra dessas almas. Não importa o que eu faça, não posso me livrar da injustiça --- mil passos desse: mil passos apenas --- e então eu me sei errada, engasgo, mas não consigo afastar o gosto salgado das lágrimas.
Eu sei que estou sendo ridícula. É por isso que escrevo para ninguém, porque já não me faltam acusações de exagero e de egoísmo. Poupe-as, se puder, mas não se esforce muito: elas não me virão como nada de novo e não agravarão em nada as minhas hiperbólicas reclamações.
Às vezes, me ocorre tomar uma machadinha em mãos e fazer por merecer o tratamento especial que tanto me dedico. Dar-me uma razão para sofrer, para não precisar sofrer sem razão. Não precisar me desculpar constantemente, nem precisar me calar.
Mas tanto faz; há ainda um erro a cometer, se eu estiver errada. Ou então estaremos todos perdidos, quem sabe? E, a quem olhar de muito perto, ou então de muito longe, não haverá diferença entre a minha dor e a dos que sofrem mais e com mais merecimento do que eu. E então estaremos livres para sofrermos como quisermos, imagine. Se assim for, talvez vocês me perdoem.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Fábula (08/2007)

Numa região montanhosa e de pouca fartura, viviam quatro lobos e quatro cordeiros. Os lobos possuíam um líder, que era o mais velho e o pai de todos os outros, e que tomava as decisões relevantes para a alcatéia. Já os cordeiros — dois machos e duas fêmeas —, pastavam todo o tempo.
Certo dia, cansado e faminto, o mais novo dos lobos voltou-se para o patriarca.
—Estamos há um dia sem comer, lá estão quatro cordeiros. Por que não matamos um e o comemos?
O patriarca, porém, respondeu:
—Eles formam dois casais, e acasalaram há algum tempo. Vê? Amanhã nascem os filhotes! — E, de fato, dois filhotes nasceriam, de forma que os cordeiros passariam a ser seis. — Percebe? Assim, aumentam os cordeiros, e teremos mais comida. Desse modo, não precisaremos procurar mais cordeiros Eles estão fazendo o serviço para nós.
O caçula acatou a decisão, porque, de fato, agora haveria mais comida. No entanto, no dia seguinte, o filho do meio veio falar ao pai.
—Estamos há dois dias sem comer, lá estão seis cordeiros. Por que não matamos um e o comemos?
A isso, o patriarca respondeu:
—Eles se alimentam de grama, e comem sem parar. Vê? Amanhã, estarão mais gordos do que hoje! Assim, ao invés de matar dois cordeiros por mês, como precisaríamos, teremos que matar apenas um para o mesmo tempo. Percebe? Eles estão fazendo o serviço por nós.
O filho do meio viu que era verdade, e por isso decidiu esperar mais um pouco. Porém, no dia seguinte, o filho mais velho foi falar ao pai.
—Estamos há três dias sem comer, estamos famintos e fracos, e lá estão seis cordeiros gordos. Porque não matamos um e o comemos?
O patriarca, porém, novamente, negou:
—Antes eles eram quatro, e agora são seis; antes eles eram magros, agora são robustos. Se esperarmos mais, eles logo serão nove, treze... e cada vez maiores e mais gordos! Assim, nunca precisaremos sair atrás de novos cordeiros, e cada um que matarmos valerá por muitos! Eles estão fazendo o serviço para nós.
O filho mais velho voltou, convencido, mas sua barriga doía de fome, e ele se sentia abatido. Assim, no dia seguinte, os três filhos foram juntos para perto do pai, suplicarem por comida.
—Não agüentamos mais, estamos famintos, e lá estão seis cordeiros gordos e saudáveis! Deixe que matemos um e o comamos!
O pai, que também estava com fome como os filhos, aceitou, por fim, que pegassem um dos cordeiros para o comerem. Foram, então, os quatro, magros e sorrateiros, atrás do outro grupo, que pastava tranqüilo.
Porém, quando os lobos deram o bote, foram rechaçados pelos cordeiros, que estavam em maior número, melhor alimentados e mais fortes. Rebateram os lobos que não conseguiram matar sequer um dos filhotes.

Moral da história: Se quer um serviço bem feito, faça você mesmo.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

[part of] The story of Laika on Mars


She was alone. Not only there was nobody around, there was nothing, as well. The soil was dry, dusty. Everything was red, even the sky, even the sun. The sun was far, further than it should, and Laika suddenly realized it was cold. It was strange for her to feel cold in a place that resembled a desert, red sand all around, and where the sun shone. She looked around, but there was no hideouts, no cover, nothing she could use to make fire.
She sat down. She couldn’t tell where to go and she could see no signs of cities, so she sat down. Watching the sun slowly move across the sky, realizing it soon would be dark. It was a scary thought, to be alone in such a place, in the dark. But she was not scared. She felt peaceful. It had been a while, now, since she’d felt this way.
She tried to close her eyes but realized they were already closed and she believed she’d never need to open them again and she wished she didn’t. She took a long breath, lay down. Almost too good...
She woke up. As her senses came back to her, she noticed she was still there. If it was a dream, it was a long one. Is there any difference between life and a dream in which you believed? If only it could last... And it did. Laika spent days gazing at the red horizon. Every night, when the red sun dived into the mountains far away, as Laika readied to sleep, she hoped she wouldn’t dream or that, if she did, that she wouldn’t dream of people.

After a few days on that strange place, or what felt like a few days, for it was hard to be sure, Laika noticed someone or something nearby. It made her upset to lose her sense of loneliness, but the person — or thing — did not make any effort to make its presence known. So, she decided to ignore it as long as she could, which was not too long, as it turned out, curiosity quickly winning her over. It annoyed her even more, but she started looking for whatever it was she felt there.
Then, she found a small creature. It was very queer and deformed, but somehow, it was clearly human-shaped. In fact, it was not merely human-shaped: it was Laika-shaped; as if a very inapt sculptor had tried to reproduce her forms, capturing the main aspects, but failing to comply with proportions and the general disposition of her traces. The thing was hidden, but as she started looking for it, it quickly revealed itself.
What... Who are you?
Who am i, the creature repeated, laughing. Well, who are you?
I am Laika. Who are you?
I am Laika.
Stop repeating me. Who are you?
Stop repeating yourself. It laughed very loud. I am Laika.
Are you... me?
Sometimes.
Are you me, now?
I am part of you. It laughed again. The best part of you.
Where are we?
It seemed to have become very upset with the question. Its face became angry and it jumped over Laika, dropping her and putting its finger on her face. How should i know where we are, huh? What the fuck do you think i am? Laika became white with fear and tried to retreat, but as fast as the creature had become angry, it started laughing again. How should i know where we are, huh? , it repeated.
I’m... sorry.
Sorry for what, kid? You confuse me.
I’m sorry.
Oh, damn.
So, what are you doing here?
Same as you, kid. What are you doing here?
Nothing.
That’s correct! It clacked its tongue. NO-THING. Rien. Nada.
That’s fine, Laika said, sitting down. Nothing is fine. I mean... It’s not that nothing is fine, as in all is bad. It’s just that nothing... It’s fine.
I see. I also think so. I enjoy giving up.
I’m not giving up.
Oh, i beg your pardon. What are you doing, then?
I am painting.
The creature laughed for more than a minute, unable to recover its breath. When it came back to it, it said: Of course you are; and laughed some more.

I will find him.
Him? , the thing asked, though it knew what she was talking about. The thing liked to be inquisitive, regardless of the necessity of such inquisitions. Asking questions was a mean of appearing to be attent.
The one blogging about me.
Oh, you will.
Are you mocking me?
No. Well, i am, but i’m serious about this. Of course, i can’t be too sure, but i am partially sure and completely confident that you will.
Laika lay down, smiling. Thanks for the confidence, she said.
And then, what?
Then things will be ok. Because everyone will know.
Hmm...
What, now?
Nothing, nothing. It’s good to have faith, i guess. You know, i am, myself, a believer.
He succeeded in making Laika suspicious. Why wouldn’t it be ok?
I never said it wouldn’t.
Yes, but it takes being a believer not to say so, right?
The creature laughed. Well, good thing is: everyone’s a believer, to some point.
You are outdated. Living here for too long made you lose contact with reality. People aren’t that credulous anymore.
The thing burst into laugh. For some minutes, it couldn’t even reply. Then, it said: Laika, Laika, you’ll kill me! Not that credulous?
It’s true!
No, it’s not true. The creature spoke crisply. You saying it is true is further proof that it isn’t! Look at you, Laika. For pit’s sake, look at you. You are so fucked up you have ended up here. And still, you come to me and talk about salvation! You are an offence to reason, that’s what you are. Laika scared herself and retreated, but there was nowhere to hide. The creature walked in little jumps, due to its deformed figure, and it approached her smiling. When it spoke, its voice was gentle and reassuring. Oh, but don’t you worry, poor thing, and don’t you cry, it said. You believe in absurd things, alright, but you are not alone. Look at all your fellows, all the stupid and lost people from your town. They were tired, too, of their senseless lives. They needed relief. Something to believe. And then a man came and told them all these fantastic tales. How could they resist?
Laika’s breath slowed down, although she was obviously not relieved. She felt an unreasonable fear of the creature.
So, it went on, do you really think you need to pursue the one behind said tales?
Yes, she said.
Even if it will probably not change a thing?
Yes, she repeated with stronger conviction.
Good, he said, for i like vengeance all the most.
They stood silent, but the tension was nearly visible on the air. The creature seemed happy, but it wasn’t smiling anymore.
It said: So, what are you gonna do?
Investigate who did that.
The creature became angry again. No!, it shouted. Not investigate! Think, Laika!
I... I must find out who...
No!, no! You know, Laika, you already know!
I don’t...
Oh, for crying out loud! How could i not know you know? I am your judgements, Laika, or part of them. I am your instincts. I am your prejudice. You know who’s done it.
And with these words, it walked away, disappearing in the red distance. 

(...) 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Lagarto


Me dá um, não sei, um asco, não: uma pena deles todos e de suas... Suas certezas, sabe? Suas opiniões sobre tudo --- espero que não seja isso, envelhecer: ter opiniões, sempre, e... respostas. Por exemplo: uma vez eu estava num clube de campo (eu era pequeno e a gente fazia essas viagens, sabe?, por a gente eu quero dizer eu e meus pais e depois eu e meu pai, só) então a gente estava nesse clube de campo e de repente vimos correndo --- devia ser a uns dez metros de distância daonde a gente estava --- vimos correndo esse lagarto, sabe? Um daqueles grandões, acinzentados e sem nada de impressionante além do fato de serem grandes e selvagens e naturalmente distantes da nossa realidade cotidiana. Eu tenho um grande apreço por animais de grande porte e em especial por aqueles que não são mamíferos. Então, veja (eu não sei se um lagarto pode ser chamado de animal de grande porte, com exceção dos dragões de cômodo, que eu também não sei se são lagartos), nós estávamos lá, tomando sol ou pegando frutas ou fazendo qualquer outra coisa dessa natureza, está bem?, e passa de repente esse lagarto de vinte e poucos centímetros --- acho que podemos concordar que se trata de um réptil de grande porte, descontados os dragões, os dinossauros e, é claro, os crocodilos, jacarés e aligátores (você saberia apontar as diferenças entre eles? E não e lindo não sabermos?) --- vinte e poucos centímetros, portanto, grande porte com exceção daqueles, e ele estava a mil (poderiam ser mil) quilômetros por hora, acho, porque em um segundo ou talvez nem isso ele havia passado e encontrado um buraco qualquer e então havia sumido. Um segundo foi todo o tempo de que dispusemos para ver aquela intrusão de vida selvagem num clube de campo até então perfeitamente civilizado e de repente um dos amigos do meu pai levantou a lata de cerveja pensativo com um dos olhos meio fechados e disparou, com o tom de quem profere grandes verdades (era EX-AT-AM-EN-TE o que ele estava fazendo) e disse:

ERA FÊMEA.

Jesus, Laura, você entende agora o quanto isso diz sobre ele, sobre nós, sobre todo mundo? Uma fêmea, por Deus, ele no mínimo deve ter reparado nas genitálias de lagarto daquele lagarto durante os cem, se tanto, centésimos de segundo em que ele (ou ela, afinal!) passou por nós. E em tudo é assim, as pessoas estão o tempo todo tão seguras de que as coisas fazem sentido e se sustentam que elas têm liberdade para determinar o gênero de um lagarto que passa correndo por um instante.
E não me olhe desse jeito, como se estivesse prestes a dizer alguma coisa e me fazer oposição; prestes a me chamar de injusto, porque eu sei muito bem que existem diversas maneiras de reconhecer o sexo de diversas espécies animais sem o exame das genitálias, mas eu não acho (acho, Laura, acho) que seja o caso desses lagartos tão comuns que não têm absolutamente nada de especial, nem cores nem nada. E também, não há a menor importância, Laura, é apenas um exemplo, está bem?
Mas, na verdade, todo mundo é assim, todo mundo menos eu. Imagine que as pessoas são seguras o bastante para saírem por aí e se declararem dentistasarquitetosengenheirosdelegadosprofessores, PROFESSORES, Laura! PR-OF-ES-SO-RE-S, e de fato lecionam, constroem etc. E eu? Minha resistência ao CREA, Laura é meu pilar de sustentação, a última tábua a que posso me agarrar e eu me agarro, mas é um maremoto, não uma maré. Todas essas pessoas são, portanto, confidentes umas das outras, isso é, suportam a certeza de unidade e coerência que carregam. Mesmo quando discordam, a seriedade de suas devoções ao Argumento fomenta a opinião contrária, não é mesmo? São, portanto, parte de um mesmo grupo. Nesse sentido, no limite, são todos meus inimigos. Detestam-me, e com razão.
Mesmo o Bruno, reparou em como ele sempre sabe das coisas e sustenta sempre posições contrárias à de quem quer que seja? O prazer da discussão só pode vir da certeza absoluta. Na fé, se pudermos e podemos dizer assim. Quanta confiança você precisa ter para falar o exato oposto daquilo em que acredita?
Por João Pessoa, Laura, mesmo você: certa de minha embriaguez, certa de estar mais consciente que eu e certa --- não tente esconder, foi o Bruno quem me disse e ele percebe tudo --- de que pode me consertar, não é?
E a verdade é que... oxalá você consiga. Que me importa, afinal, se o lagarto é macho ou se é fêmea, podia ser qualquer coisa não é isso o que importa, entende, então eu também poderei fazer cara de quem sabe o que diz e talvez nem veja de verdade o lagarto, mas direi:

É FÊ

não, ainda não posso, você precisa me consertar antes, não é? Ah, por Deus, Laura, por João Pessoa, juro que nunca mais bebo --- por favor, me lembre de não beber, que não quero nunca mais chorar assim na sua frente, você me desculpe. Mas não, são só algumas gotas, não importa, isso, pode deixar, já estou melhor.
É toda essa certeza, toda essa convicção. Me dá, não sei, não é asco, é, talvez, inveja, uma inveja de morrer.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Gabriel queria escrever um romance. Ele já havia escrito outras coisas antes, é claro: historinhas, na denominação utilizada pelos parentes mais próximos e por aqueles que possuíam qualquer dosagem de senso crítico; agora, porém, queria escrever um romance.
O procedimento é relativamente simples, ao menos no que diz respeito ao seu aspecto, digamos, braçal: adquire-se o equipamento necessário, que pode ser uma agenda telefônica e caneta ou uma área suficientemente grande de areia na praia e um pedaço de pau (no caso, optou-se por um computador), dedica-se uma quantidade suficiente de tempo e procede-se com a técnica repetitiva e mecânica de desenhar letras ou pressionar teclas. É isto o que fazem aqueles que escrevem romances e, ao fazê-lo, Gabriel não poderia ser diferenciado de nenhum de seus grandes heróis da Literatura com L maiúsculo.
No entanto, findas algumas horas e diante da página quase completamente vazia, Gabriel percebeu que a tarefa era muito menos simples do que inicialmente se lhe havia apresentado. Dispondo ainda do tempo que havia reservado em seu cronograma e no intento de atiçar a criatividade, nosso intrépido herói deu uma rápida olhada ao redor, à procura de qualquer objeto que lhe servisse de inspiração.
Ao seu lado, encostado à parede e coberto de poeira, estava o antigo violão. Um violão é um instrumento musical e, portanto, artístico; a música e a literatura são espécies diferentes de um mesmo gênero e, portanto, o empenho a uma certamente renderia seus frutos à outra. Dotado de tal convicção, Gabriel tomou o violão em suas mãos e pôs-se a dedilhar uma das raras melodias que subsistiam em sua memória. Os dedos correram sozinhos pelas cordas, engasgando-se, às vezes, mas demonstrando-se razoavelmente corretos.
Produziram um som odioso.
Gabriel percebeu-se, então, diante de um novo problema: não sabia como afinar o instrumento. Dirigiu os olhos tentados à tela do computador, em cujo canto superior esquerdo reluzia o ícone do navegador Firefox, deixado ali a postos. Um dilema moral nasceu dessa observação: havia imposto a si mesmo a restrição de não desperdiçar seu tempo de escrita na internet, vício dos vícios. No entanto, tocar o violão era, de certa forma, parte do processo de escrita, e aprender como afiná-lo era parte do processo de tocar o violão. Após alguma reflexão, consentiu em liberar-se de sua restrição, desde que fosse exclusivamente com este bom intento.
Após alguma pesquisa, porém, observou outra dificuldade: não lhe bastava simplesmente mimetizar os sons que alguns sites ofereciam, para saber que o violão estava afinado. Era preciso ir a fundo, refletir sobre a natureza das escalas musicais, sobre a razão de ser das variações microtonais etc. Não o fazer seria reduzir seu empenho musical a uma tarefa isenta de raciocínio crítico, o que obviamente contrariava as demandas mais básicas da escrita literária — e afinal, era isso o que ele estava fazendo: escrevendo.
Imergiu-se, assim, no estudo de teoria musical. Evidentemente, um dia não lhe bastou, então os dias se passaram e ele lia com olhos vidrados tudo o que podia encontrar sobre o assunto. Após quatro anos, julgou-se apto a, enfim, afinar o violão, o que de fato fez.
Terminado este primeiro passo, Gabriel pôs-se a tocar, agora com muito mais clareza e convicção, e até mesmo a compor. Sempre que lhe ocorria voltar os olhos à página em branco e talvez pressionar uma ou outra tecla, percebia que ainda não estava pronto, de forma que voltava a correr os dedos pelas cordas.
Até que, é claro, aquilo já não lhe bastava. No oitavo ano, saiu de casa apressado e comprou um contrabaixo. Depois, seguiram-lhe um sax, um piano de cauda, uma flauta doce, uma cuíca, uma gaita diatônica etc. No décimo quinto ano, após breve vislumbre do cursor que piscava impaciente na página vazia do Word, Gabriel decidiu que era hora de investir mais seriamente na literatura, motivo pelo qual comprou os mais avançados equipamentos de gravação e edição de som e sintetizou, em seu quarto, mesmo, seu primeiro álbum musical.
O sucesso desse primeiro disco fez com que um segundo fosse lançado, em obra que contou com a feliz participação da Berliner Philharmoniker.
Notando que nem a aclamação popular, nem os inúmeros prêmios, nem os milhões de dólares adicionados à sua conta bancária lhe eram suficientes para a escrita, Gabriel então percebeu que estava se desviando demasiadamente de seu caminho. No vigésimo oitavo ano de produção do romance, ele decidiu que era necessária uma completa reviravolta em sua vida, de forma que foi imediatamente a uma loja próxima e adquiriu acetona, carvão, tinta a óleo e telas. Repetiu os procedimentos de estudo e prática e, no trigésimo terceiro ano, foi destaque tanto no Moma quanto no Tate.
O que, evidentemente, não se deu sem seus contratempos: teve que recusar o convite para participar em uma campanha publicitária de televisores Sony, porque, conforme afirmou em japonês irrepreensível (aprendido como forma de inspiração e ampliação de horizontes linguísticos) ao exasperado representante de marketing da empresa, isso atrasaria o término de seu livro, que, afinal, era seu principal propósito.
Após similares incursões ao teatro, cinema, arquitetura e escultura, Gabriel chegou mesmo a inventar novas modalidades artísticas, utilizando-se de meios e linguagens nunca antes concebidas. Aos oitenta e oito anos, teve um enorme monumento em sua homenagem erguido na plataforma espacial Tiangong e celebrações foram realizadas pelo mundo nas ocasiões de seus aniversários de noventa, noventa e cinco e cem anos.
Quando faleceu, aos cento e quatro anos, uma editora alemã conseguiu os direitos de publicação de seu romance, consistindo em uma capa em que figurava apenas seu nome e três folhas quase completamente em branco, com duas ou três palavras espalhadas de forma aparentemente aleatória em cada uma. Os jornais do mundo todo noticiaram com tristeza a ocorrência e ressaltaram o afinco de seus estudos, seus contínuos esforços nos mais variados campos do saber e, acima de tudo, o empenho irrestrito à literatura.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Laura

Quando eu era pequena, eu gostava de ficar na casa da minha avó.
Era uma casa grande, mas boa para crianças pequenas (e eu sei disso porque eu era uma criança pequena). Então, eu ficava lá.
A casa tinha uma sala grande, uma cozinha grande.
Ou eu era pequena.

Mas tinha um cano de ferro verde que descia desde o andar de cima e a gente (mas só gente pequena) (e só quando ninguém estava olhando) usava para subir até o andar de cima.
Tinha uma escada, também.
Mas eu subia sempre (que ninguém estava olhando) pelo cano. Porque as gentes grandes subiam pela escada e eu era pequena e gostava mesmo era de subir pelo cano verde. E chegando lá em cima, no segundo andar, tinha a grade da janela e um muro. E o muro era perto da janela. E a janela era perto do cano de ferro verde. Então a gente subia no cano verde. E depois na janela. E depois no muro. E a janela também era verde, mas o muro era branco (mas não muito branco, porque a gente subia nele).
De lá, dava pra ir andando até o outro lado. O outro fim do muro, porque um muro tem dois lados e dois fins. Mas a gente não fazia isso.
Não.
A gente se esticava toda em cima do muro e apoiava o pé na grade da janela (que ficava perto do muro) e pisava ao mesmo tempo que puxava com a mão. Assim a gente conseguia subir no telhado da casa. Em cima da janela e do muro e do cano verde. E do segundo andar e do primeiro e das pessoas lá dentro. E a gente, que era pequena, ficava mais alta que todo mundo. A gente ficava mais alta que a minha avó e todas as outras gentes grandes.
E a gente gostava disso.
E a gente era eu.