quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Mar, 18

Eu havia escutado a história sem dizer nada, totalmente fascinado com o relato. Foi por pouco que não aplaudi ao final, o que, em retrospecto, poderia ter demonstrado alguma desconsideração com o sofrimento de Ike --- e não me apeteceria, mesmo, provocar o homenzarrão.
Contudo, mal o outro acabou de falar, um segundo inglês, de sotaque igualmente estranho e antigo, interveio, dedo em riste. "Não foi nada disso!", falou. Era um dos que até então amparavam Ike, e tanto na forma como o consolara antes quanto na contestação da versão relatada pelo companheiro, era nítido o quanto gostava do grandão. 

Foi, portanto, no tom de voz de quem corrige uma injustiça que narrou o seguinte conto.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Ao longo de uma música


É quando me bate a saudade das coisas que eu deixei de ser pelo caminho. Quando me pego sentado com a postura errada, olhando para a tela do computador sem realmente enxergar as palavras e ouvindo no fone o Gilberto Gil cantando sua versão do Bob Marley e eu me lembro, é claro, daqueles dias na praia (quinze anos, salvo engano) e daqueles meninos mais velhos (adultos, portanto) com o violão.
Eram os únicos momentos em que eu conseguia ficar quieto (nesse sentido, não mudei nada: sempre imensamente afetado pela hostilidade de um ambiente e igualmente por sua receptividade), olhando a rebentação e as meninas perto da fogueira, algumas de biquíni, ainda. Havíamos passado a noite inteira zanzando pelo Centrinho, tomando sorvete e mudando ocasionalmente de lugar para ver as meninas passando. Era mais ou menos a isso que se resumiam minhas férias, imaginem só. E eu diria que valeu a pena se pelo menos conseguisse me lembrar de qualquer uma delas. Enfim. De qualquer forma, só as via passando, mesmo, e então comíamos qualquer coisa e nossas amigas (que também víamos só de passagem) nos chamavam para mais perto do mar.

Um dia, choveu muito e a água passou sem tomar conhecimento do teto de um dos quartos, molhando completamente alguns dos colchões. Os adultos evidentemente não perderiam suas camas, então seríamos forçados a espalhar os colchões restantes no chão e dormirmos todos juntos. Éramos três meninos e duas meninas, ambas um pouco mais novas e absolutamente maravilhosas. Isso foi logo na hora do almoço, então nós três passamos o dia inteiro sem conseguir pensar em qualquer outra coisa. A todo momento, discutíamos como seria estarmos tão perto das meninas; os assuntos que inevitavelmente surgiriam; as vontades que elas certamente já sentiam e reprimiam, mas que, no ambiente propício, floresceriam; e, principalmente, quem de nós seria o desafortunado que ficaria de lado, sozinho, perdido. Ensaiamos movimentos, frases, formas de sussurrar. Não posso dizer quanto aos outros, mas pessoalmente, me apavorava pensar na possibilidade de chutar alguém, roncar ou peidar durante o sono.
À noite, repetimos o teatro de sempre: o Centrinho, as mudanças de mesa --- mas já nem ligávamos para quem passava, exceção feita ao tempo.
Eventualmente, as duas vieram e nos chamaram para ir à praia e, conforme havíamos deliberado previamente, acatamos e as seguimos, tendo sido vetada, por ser considerada suspeita, a ideia de negarmos o luau, propondo em seu lugar um jogo de baralho que antecipasse nosso grande momento de trunfo e glória.
Assim foi que sentamos na areia como se aquele fosse um dia absolutamente comum e olhamos a rebentação e ouvimos a música, enquanto nos perguntávamos aos cochichos se já não era tarde, se já não podíamos organizar a volta à casa. E estávamos nessa quando vimos dois rapazes deitarem o violão e sentarem do lado das meninas e conversarem com elas. Como se a gente não estivesse ali!
Eventualmente, acabamos desistindo de olhar pra escuridão fingindo indiferença e voltamos pra casa. Jogamos nós o baralho e esperamos até cairmos de sono sozinhos nos tais colchões.
Quando acordamos, elas estavam lá, com a gente. Mas aí já não adiantava mais.

Será que eu suportaria aquilo, hoje? Aquela conversa, aquelas piadas sobre a homossexualidade alheia e sobre a genitália própria? Certamente ainda gosto da areia e do mar, ainda pego caranguejos, quando posso, mas ouvir Natiruts mal interpretado à meia noite no litoral norte...
É bem provável que eu esteja melhor com a postura torta e as palavras no monitor. Mas...
Mas era uma possibilidade, não era? Mesmo agora, se eu repassar tudo o que aconteceu desde então, acho que nem consigo identificar exatamente quando foi que aquilo virou um absurdo. E também não dá pra dizer que não sejam absurdos este agora, esta camisa, estes sapatos.

Quando vim trabalhar no banco, lembrei imediatamente de dois ex-colegas de faculdade que eu sabia (ou suspeitava) que trabalhavam aqui. Já nas entrevistas, perguntei ao meu (então potencial) futuro chefe se os conhecia, mas ele nunca havia ouvido falar em nenhum dos dois. Dei de ombros, que o banco é grande, cheio de pessoas e departamentos e tudo o mais. Nenhum motivo para me admirar, evidentemente.
Mas num outro dia, já contratado, flagrei-lhes os nomes sendo mencionados numa conversa. Investiguei um pouco e matei a charada: os dois eram empregados, sim, mas não do banco em si, e sim de outra pessoa jurídica do mesmo grupo econômico: trabalhavam para um outro banco, focado em investimentos de grandes pessoas jurídicas, que foi adquirido pelo conglomerado mas manteve seus funcionários, incluindo o corpo jurídico.
Cavando um pouco mais, descobri o e-mail dos dois, e mandei minhas saudações. Eles responderam, me parabenizando pela contratação e desejando sorte, mas depois disso nunca mais nos falamos.
Passados sete meses, o funcionamento do banco começou a fazer mais sentido para mim, assim como se evidenciaram as relações entre departamentos, as disputas por orçamento e as rixas internas. Embora não houvesse hierarquia formal entre as diretorias, comecei a perceber que determinadas áreas gozavam de certos privilégios, sempre proporcionais aos lucros que elas rendiam para nossos acionistas.
O setor com o pessoal que geria os fundos tinha a melhor vista do prédio. Os gerentes dos clientes milionários tinha, nos e-mails, uma assinatura mais personalizada e, na copa, bolachas Calipso, ao invés das de água-e-sal. Meus colegas que lidam com clientes internacionais receberam computadores novos. Mas ninguém dava tanto dinheiro para o banco quanto as grandes pessoas jurídicas e suas emissões de debêntures, seus IPOs, seus M'n'As, suas operações de câmbio gerando milhões no float.
Então, nem os gestores de fundos, nem o pessoal que lidava com socialites, nem o pessoal do internacional, com suas conference-calls em línguas sortidas --- nenhum deles se comparava à equipe dos meus dois amigos. Eram eles que nos exigiam os prazos mais curtos e que mais nos condenavam por perdê-los. Eram eles que determinavam, com voto de Minerva, as datas e horários das reuniões. O banco de investimento era o panteão dentro do conglomerado, e lá só havia deuses.
Ah, como eu fui inocente, mandando aquele primeiro e-mail! Eu imagino a cara deles, ao recebê-lo. O ex-coleguinha de classe que arrumou uma vaga na cozinha e vem se gabar aos passageiros do cruzeiro. Eu imagino na cara deles o misto de divertimento e pena com que viram a animação com que eu relatava minha contratação e os imagino lançando um para o outro um olhar cúmplice.

Será que daqui a alguns anos, também vou me lembrar e... Bom, pior seria não lembrar. De todo modo, é o próprio Gil quem me conforta e diz que tudo-tudo-tudo vai dar pé.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Mar, 17 - A história do norueguês

Ike embarcou novo demais para se lembrar de qualquer paisagem norueguesa. Também não sobrou muito por lá de que se lembrar. Viajaram com ele a família toda e a esmagadora maioria dos amigos e conhecidos. Todos os bens foram empilhados em navios, todos os moradores da vila juntaram suas coisas e, aos poucos, não sobrou ninguém por lá.
Assim, quando pensava na infância, era para os campos da Inglaterra, então dominados pelos nórdicos, que ele voltava a memória. Àquela altura, o território tomado já era tão vasto que Ike praticamente não via sinais da guerra: em sua vila se plantava e se criava em paz e se falava o norueguês. Os ingleses que restavam falavam uma mistura da língua do norte com o saxão e também não devotavam lealdade ao rei britânico. Para eles, que não eram cristãos e não tinham grande apreço pelos impostos cobrados pela coroa, a vida seguia em frente.
Mas, ao sul, os combates prosseguiam, intercalando grandes conquistas com pesadas derrotas. As histórias chegavam ao norte na forma de relatos mal contados de ar fabulesco, misturando as narrativas dos grandes feitos dos comandantes noruegueses e dinamarqueses com menções a espíritos ruins e bestas vindas de outros mundos. Era impossível considerar a guerra de forma concreta, como o era esperar que ela mantivesse incólumes por muito tempo aqueles vilarejos.
Quando tudo ia bem, os viajantes chegavam com moedas e muita sede, pagando bem nas estalagens e bordéis; mas quando os ingleses viviam seu ápice e as terras do sul eram retomadas, os fugitivos vindos de lá apinhavam e alimentavam a mendicância e a criminalidade dos vilarejos. Traziam, também, a demanda constante por comida e por braços jovens e fortes, como já eram então os de Ike.
Ele já era um pouco velho para aprender como se devia o ofício da guerra, viciado já na forma alucinada e desordenada com que os meninos brigavam na rua, mas Ike logo se demonstrou um soldado talentoso e, principalmente, ambicioso. Mesmo enquanto ainda engatinhava nas linhas em que lutava, ele já sabia bem que queria ter seus próprios homens e, principalmente, seu próprio barco.
Durante seis anos, Ike lutou em diversas batalhas, obtendo vitórias significativas e, com elas, riquezas.
Eram anos em que combater era um negócio lucrativo, e, para os profissionais do ramo, nunca faltava trabalho.
Nos pântanos da Wiltshire, matou homens o bastante para comprar um punhado de terra ou um título de nobreza, mas, isso não lhe interessava: eram ambições para quem queria formar uma linhagem, e Ike não pensava em parar. Não agora.
Ao invés disso, usou o dinheiro para iniciar seu plano de ter um pequeno exército. Ike pagava bem aos homens que o seguiam e os treinava melhor, de forma que não demorou a juntar bons soldados que lhe defendessem o brasão. Um navio, contudo, parecia ser um sonho mais ambicioso.
Em primeiro lugar, eles eram caros. Ike havia juntado dinheiro, mas nem de longe tinha o suficiente para pagar pelos serviços de um bom construtor (que a madeira, arranjava-se). Em segundo lugar, tomavam tempo e exigiam muita mão de obra --- duas coisas que Ike julgava difíceis de conseguir.
Restava-lhe, no entanto, a opção de recorrer à forma alternativa de aquisição de quaisquer bens mais em voga naqueles tempos: a guerra.
Aconteceu-lhe como que por acaso. Num ataque a uma fortificação, viu-se separado do resto das forças nórdicas quando um exército saxão, surpreendendo-lhes pela retaguarda, rompeu a linha que os noruegueses voltavam aos portões do castelo. O combate os arrastou cada vez mais para longe dos companheiros e para perto das margens de um rio, deixando-os encurralados e em menor número. Nesse momento, rio acima, despontaram os mastros de duas naus saxãs, descendo as águas com mais homens para terminar aquilo que todos os indícios apresentavam como um massacre.
Mas Ike havia estudado o terreno e sabia ler as águas melhor que qualquer inglês. Manobrando seus homens como um maestro, dirigiu-se para onde as ondas indicavam a presença de bancos de areia e contornou, pela água rasa, os homens que os prensavam. Os navios não puderam chegar mais perto e seus tripulantes tinham dificuldade em arrastarem-se, com o aço que vestiam e levavam, pelo lamaçal. Enquanto isso, o exército inglês em terra firme perdera a vantagem geográfica e começava a tropeças em seus próprios mortos. Quando os homens dos navios chegaram, o fizeram sem nenhum ímpeto e sem equilíbrio, desastrados e já se sabendo em maus lençóis.
Enquanto isso, as espadas faiscavam umas contra as outras e os escudos tilintavam sobre o ruído das águas. ike ainda tinha menos homens, mas os que tinha sabiam que haviam sobrevivido ao pior e esse ânimo lhes dava forças. Resumindo uma história que já se alonga além do que devia, venceram, e aos vencedores, as naus.

Foi ao barco que Ike deu o nome de Maud Thyra. E, a princípio, Ike se demonstrou tão genial nos mares quanto o era em terra firme. Suas manobras eram mais ágeis e precisas que as de qualquer oponente, e Ike os derrotava um a um. Mas então, o impensável aconteceu.
Foi justamente no equinócio que, após navegar por seis dias, Ike e três navios aliados se depararam com as forças do rei Alfredo: seis navios apinhados de saxões raivosos. Os nórdicos logo compensaram a desvantagem numérica com o instinto natural aos combates no oceano, mas havia algo errado com Maud. A nau estava perdida, incapaz de prever as manobras dos adversários. Estava lenta. Ike parecia ter perdido a mão, e isso lhe custou caro demais. Foi cercado como um rebanho pelo cão pastor. Foi dominado, rendido e derrotado.
Os saxões o capturaram e a partir daí, a história se torna nebulosa. É certo que sofreu as piores torturas que seus captores puderam imaginar e que, de alguma forma, conseguiu fugir. Mas então, já não era o mesmo.
Parecia um fantasma, a sombra de um homem, perambulando bêbado pelas estradas litorâneas, procurando incansavelmente por seu barco. Desde então, sempre que chega o equinócio, a dor lhe ataca e ele repete sua lástima pela perda do Maud Thyra.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Mar, 16

A portuguesa terminou sua história e imediatamente retornou ao silêncio de antes, olhando calmamente para o mar distante, embora a noite já tivesse se fechado, impedindo que se visse qualquer coisa. Durante algum tempo, eu não pude fazer mais do que acompanhá-la, mudo, enquanto pensava no que ela me havia dito. Eu havia escutado a tudo com grande naturalidade e, mesmo depois, não duvidava de nada. Imagino, é claro, que a coisa toda pareça absurda a quem lê este diário, mas qualquer um que ouvisse a história da boca de Maria saberia que aquela só podia ser a verdade.
Na verdade, naquele momento, eu sequer sentia haver razão para estranhamento. Apenas levantei-me, portanto, e saí arrastando os pés em direção à casa em que estava hospedado, ouvindo o ruído das ondas e pensando na enorme tristeza que me havia dominado.
No dia seguinte, quando o sol se pôs, quis me distanciar das ruas por onde costumava passear e deixei que meus pés cuidassem de me levar para onde bem entendessem. Havia tanto de extraordinário naquela ilha que eu me sentia seguro de que, fosse aonde fosse, acabaria por me deparar com algo que me valesse a noite. E não havia andado por mais de quinze minutos quando algo me chamou a atenção.
Alguns metros à minha frente, dois homens tentavam consolar um terceiro, que urrava aos prantos. Este se contorcia, gritava e dava murros no chão, num desconsolo absolutamente teatral, mas a situação ganhava ares cômicos, mesmo, pelo fato de o chorão ser um homem gigante, decerto acima dos dois metros de altura e não muito menor de ombro a ombro.
Seu rosto enorme parecia uma ilha, perdido em meio às ondas de seus cabelos compridos e barba desgrenhada, e ele repetia insistentemente as mesmas palavras, que mais tarde descobri serem um nome: Maud Thyra.
Como não entendesse o que ele dizia, me aproximei de um dos homens que o acodiam e que falava um inglês curioso, mas razoavelmente compreensível. Perguntei por quê o homem chorava, e ele me disse que esse espetáculo tragicômico se repetia todos os anos, no equinócio.
A resposta, é claro, apenas aumentou minha curiosidade, de forma que o pressionei para que falasse mais. O sujeito não apresentou muita resistência. Sentou-se em um muro e, balançando alegremente as pernas, contou-me a história do grandalhão.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Mar, 15 - A história da portuguesa

Maria cresceu em uma vila próxima a Lisboa. Eram sete famílias instaladas em volta de um riacho, a meio caminho do mar, se sustentando da pequena produção de subsistência e da venda de azeitonas e carne de carneiro para os comerciantes que passavam por lá. A vila ficava em uma rota bastante utilizada por quem cruzava os prados e era próxima o bastante de outros povoados para que o comércio e a vida dos moradores fossem razoavelmente agitados. Havia crianças e cães sempre correndo, havia as compotas da dona Luzia, havia os banhos na água gelada do riacho e, acima de tudo, havia Teodoro Barbosa.
Teodoro era o mais novo de cinco irmãos e o único ainda solteiro, se bem que não por muito tempo: estava prometido, já, para Maria. Desde que Maria tinha três anos, data em que sua irmã mais velha morreu de uma febre, ela sabia que ia casar com o Teo e, agora que chegava perto dos dezesseis anos, a ideia era tudo em que conseguia pensar.
Evidentemente, os dois nunca haviam realmente conversado. Maria o via às vezes passando em direção aos pastos, enquanto ela mesma ajudava a regar os legumes que a família plantava em frente à sacada do casarão. Depois, à tarde, ela ficava à janela misturando a massa para a alheira ou temperando a carne para a linguiça ou mexendo a panela de ensopado até que ele voltasse para casa, suado e cansado, mas com a mesma radiância. Então, ele diminuía um pouco o passo, virava a cabeça de leve, como se sem querer, e sorria pra ela, fazendo-a encher-se de vergonha e se esconder pra dentro da cozinha.
Mas então o pai de Maria organizou um jantar em sua casa e chamou os Barbosa e anunciou na vila que aquela noite tinha festa. Maria e a mãe colheram laranjas e fizeram bolo. O irmão dela e sua esposa abriram garrafas de vinho. Os pais das duas casas acertaram o dote e marcaram a data. E nesse dia Maria e Teo viraram noivos.

Eles foram felizes, juntos. Havia fartura nas terras ao redor do Tejo --- o Nilo português, como se dizia então --- e os dois se amavam e se entendiam bem. Teo era forte como um touro, de peito largo e braços firmes; Maria entregava um filho após o outro, todos varões, gordos e saudáveis.
Mesmo assim, quando Teo partia com as sacolas penduradas nos ombros pela manhã e seguia em direção ao cais, onde negociaria com os marinheiros que por ali passassem, oferecendo-lhes laranjas, azeitonas e carne salgada em troca de peixe, arroz e temperos trazidos de longe, Maria julgava ler qualquer coisa em seus olhos. Não era algo que ela pudesse definir com precisão, mas estava lá: uma espécie de opacidade distraída, como se se perdessem em sonhos sobre o que haveria além.
E então, a febre chegou. Não trazida por algum vírus novo e letal, mas pelas notícias de Lisboa: Portugal saía ao mar.
Primeiro, chegaram relatos vagos. À Índia, diziam, e ao Novo Mundo, fosse isso o que fosse. Depois, a descoberta de um novo continente foi se confirmando nos relatos dos mercadores e em suas histórias de terras selvagens habitadas por homens nus e adeptos do canibalismo e repletas de animais exóticos e ferozes. Logo, não se falava em outra coisa.
A Maria, tudo isso parecia bárbaro e horrível, mas Teo tinha uma opinião absolutamente contrária sobre os relatos. A América era para ele a promessa do Eldorado, da prosperidade e de um futuro brilhante. Para ele, cruzar o oceano era de uma vez, um dever patriótico e uma oportunidade imperdível de cumprir sua missão no mundo (nesses dias, ele vinha falando muito nesses termos).
Com o tempo, a ideia foi se consolidando em sua cabeça. O dinheiro que ele obteria em um ano seria suficiente, ele pensava, para dar prosperidade à familia toda. Haveria tanto ouro na América, tantas pedras e outras tantas maravilhas...que bastaria ir à cata e contar os lucros. Não pensava nas aventuras ou nas índias de pele queimada e carne rija. Essas coisas jamais lhe ocorreram. Teodoro pensava, então, como pensara sempre, exclusivamente em Maria e nos filhos. Queria enriquecê-los, dar-lhes presentes. Talvez mandar o primogênito para estudar em Coimbra. Fosse o que fosse que sua família precisasse, Teo queria dar-lhe, e para isso, pensava, precisaria da América.

Durante algum tempo, ele não fez nada. Continuou trabalhando, negociando com os mercadores, voltando para casa à tarde, tratando Maria e os filhos com o mesmo carinho. Mas a ideia não lhe saía da cabeça. O mar o chamava.
Um dia, definiu os planos, juntou uma mala e foi para a capital. Ficaria um ano fora e voltaria com riquezas bastantes para que a família pudesse ficar tranquila até ele morrer, talvez depois.
Maria chorou quando ele lhe contou isso e chorou quando o viu partir e chorou muitas vezes depois, mas nunca tentou impedi-lo nem duvidou de que ele voltaria. Eles se amavam demais para isso.

Um ano se passou e as notícias vindas das colônias eram raras e vagas. Maria imaginava os monstros que assombravam o Atlântido e tremia pelo marido. À noite, era visitada por pesadelos sobre naufrágios ou sobre os povos bárbaros que recepcionavam os portugueses na América, impondondo-lhes todo tipo de sofrimento.
Durante o dia, porém, trabalhava. Os filhos cresciam, as plantações vingavam, o comércio ia bem e, entretida nesses assuntos, Maria gastava os dias, esperando que a manhã seguinte a acordasse com os gritos de Teodoro, anunciando sua chegada. Passaram-se outros tantos dias, e então um mês, sem que viesse qualquer notícia do regresso. Outro mês veio e se foi, e então mais um e mais outro. Quando o segundo ano desde a partida do marido chegava perto de se completar, Maria já havia se habituado à solidão, embora nunca, nunca tivesse cogitado a possibilidade de ele não voltar. Ele disse que voltaria e Teodoro não mentiria para ela. Eles se amavam demais para isso.

E então, em um dia como qualquer outro, atracou no cais um barco de mercadores de Santarém. Eles desceram na cidade aos gritos, aparentemente embriagados. Um dos homens, com uma barba preta que escondia toda a metade do rosto, parecia liderar a bagunça.
Uns homens da vila se zangaram, umas mulheres fizeram, instintivamente, o sinal da cruz. Mas Maria correu de encontro ao grupo e se atirou sobre o homem barbudo e sentiu Teodoro abraçá-la de volta.
Teo trouxera dinheiro, como prometido, mas muito menos do que o anunciado. Se tivesse trabalhado no campo durante aquele tempo, era certo que teria juntado mais. Mesmo assim, parecia convencido de que a viagem valia a pena. Se apenas tivesse dado mais sorte, murmurava, sem concluir a frase. Mas agora eu já sei como fazer... Agora vai ser melhor.

Maria não tentou dissuadi-lo, porque não era dada a dispêndios inúteis de energia. Qualquer um que ouvisse Teodoro falando do mar sabia que nada iria convencê-lo a ficar em terra firme. Assim, ele voltou a embarcar esta e tantas outras vezes. Quando a hora chegou, pegou o primogênito e o levou consigo, prometendo que faria o mesmo com o segundo filho na viagem seguinte.
De repente, Maria se percebia parte de uma família de marinheiros. Quando voltavam, os meninos, cada vez mais homens, relatavam os perigos por quê passaram, os piratas de quem escaparam, as terras que conheceram. E quando partiam, era com isso que Maria sonhava, à noite, antes de acordar suada e ofegante de susto.

As viagens duravam meses e, em cada uma, partia um filho a mais. Quando todos atingiram idade suficiente, e quando já não havia mais crianças, Maria ficou sozinha. Ela sofria, é claro, mas não de abandono; era só a danada da saudade, que não sabia, como Maria, que a distância era passageira. Eventualmente, marido e filhos voltariam, disso não havia dúvida. Maria, pelo menos, não duvidava. Ela apenas se deixava ficar no cais, o olhar perdido além da rebentação. Esperando.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Você não me deixa chegar mais perto. Acho que faz bem, não sei, a proximidade também pode ser uma arma para você, não pode? É claro que pode, uma arma apontada para mim, bem mais do que para você. Mas a distância é pior e você me mantém longe.
Longe e sem saber o que fazer.
A música volta e eu tiro outro par, me perguntando com quem você está dançando, contra quem você se debruça, em que ombros estão suas mãos etc. Tem coisa mais ridícula do que isso? Evidentemente que não, mas a dança é esta, todo mundo dança, nós também dançamos.
Dançar! Como é que se pode dançar? Sorrir! Beber, comer, conversar etc. Quem suporta uma coisa dessas? Dançamos, a luz vacila e eu penso que poderia ser você, à minha frente: estas mãos, este algodão, este ofegar. Poderiam ser você e eu não teria como saber, neste escuro piscante. Talvez você tenha vindo devagar e em silêncio (mas não seria preciso muito silêncio, afinal de contas), deixado o outro rapaz sozinho e se colocado discretamente no lugar da minha garota. Sem que eu percebesse, você teria segurado meus ombros, ajeitado minhas mãos na sua cintura, sussurrado qualquer coisa no meu ouvido, sabendo que eu não ouviria.
De repente, eu consigo sentir a largura do seu quadril, o ritmo mais rápido de balançar, a intimidade maior com que suas mãos seguram minha nuca. Eu também me solto mais, te prendo mais, já quase nos abraçamos. Sinto seu rosto no meu. Seu cheiro.
Isso pode significar muitas coisas. Pode ser que você me tenha perdoado ou que encontrou um jeito melhor de me punir. (Imagine só as coisas em que vou pensar amanhã de manhã!) Pode significar outras muitas danças, ou pode ser que seja a última. (Dançar adeus.) Francamente, não sei se me importo. Na verdade, não consigo me obrigar a pensar nestas coisas, porque minha mente desvia sempre para você.
Por mais que eu tente levantar questionamentos, portanto, não consigo afastar a certeza de que tudo vai dar certo. De que vamos resolver tudo, de que vamos nos entender. Eu não sinto nenhum rancor na forma como você se mexe junto a mim, então eu sei. De repente, eu entendo que tudo o que se passou é de uma pequeneza, de uma insignificância... Não é nada que se compare a você ou a nós. Eu me sinto ridículo por ter levado tudo tão a sério. Por ter duvidado da gente. Problemas, todo casal tem, é óbvio, mas e daí? Já nem me lembro mesmo por quê brigamos...
Fecho meus olhos, deixo você me levar. Daqui para a frente, será sempre assim. Outras músicas vão tocar. Teremos tanto tempo...
Mas esta música acaba. No intervalo curto antes de a próxima tocar, as luzes se acendem e eu vejo um vislumbre rápido seu. A garota, ainda nos meus braços, parece ter gostado de mim; pergunta se eu quero dançar a próxima, também. Dançar! Como é que se pode dançar?

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Mar, 14


No primeiro dia, não pude resistir à tentação de ir ter com a moça sentada no cais. Me aproximei dela, sentei também e passei algum tempo em silêncio, ouvindo as ondas. Nas pedras abaixo, um carangueijo carregava um tufo de algas para um buraco, mas era atrapalhado pelo agito do mar. Acima, uma fragata ainda rondava, embora o sol já tivesse baixado e a noite em breve cobriria tudo.
Passados alguns minutos, me dirigi à mulher. Se chamava Maria e era mesmo portuguesa (até então, suspeitávamos). Falava com sotaque forte. A princípio, parecia avessa à ideia de conversarmos, mas acabou se abrindo e, então, achei que não fosse parar de falar.