Júlio Marins, atualmente com trinta e quatro anos, não tem um labrador nem um grande aquário marinho em seu apartamento duplex. Sequer tem um apartamento duplex. Em qualquer projeção que já fizera em toda a sua vida, mesmo naquelas feitas na véspera de seu último aniversário, Júlio sempre se vira aos trinta e quatro anos em um duplex, com um labrador e um grande aquário marinho com as mais escabrosas espécies de crustáceos e moluscos que pudesse encontrar.
Durante sua infância, Júlio notou um fenômeno metereológico até o momento inexplicado pela ciência mas que o perseguiu desde então: todos os seus bons desempenhos em avaliações eram precedidos por pequenas catástrofes climáticas, que envolveram ventanias mais ou menos controláveis e tempestades de verão, chegando ao Furacão Catarina, na data de divulgação de sua última nota antes da formatura em uma faculdade particular de Santa Catarina e culminando nas enchentes de 2008, ano em que concluiu seu mestrado em Comunicações. No campo profissional, sua sorte não era muito melhor e Júlio, já treinado para observar essas coincidências, rapidamente reparou que todas as bonificações, promoções e aumentos recebidos em seus dias como redator de uma revista de entretenimento corresponderam à morte de um grande ídolo ou de algum familiar — o que, em parte, explica sua atual atuação como free-lancer, bem como a ausência de um duplex, um labrador e um aquário em sua vida.
Sua maior sina, no entanto, são os assuntos do coração. Cada uma das mulheres que Júlio amou conseguiram, de alguma forma, machucar-lhe de uma forma que o fazia sentir-se destruído, torturado, assassinado.
Nada disso, porém, o desanima.
"Vá lá que para cada passo à frente, dou também um para trás", diz. "Mas nunca parei de dançar".
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Fim: Justiça em dois atos
Samuel Matias conseguiu, graças ao oportuno alerta de Najibah, esquivar-se de Park, quando este o atacou. Um tiro na têmpora fez o serviço, mas Samuel achou por bem disparar trinta e nove outras vezes para assegurar a morte do homem.Do fim do corredor, onde a luz fraca tremulava, ouviu-se a movimentação de centenas de milhares de homens.
Vamos!, gritou Samuel.
Najibah ainda não havia se adequado inteiramente à recente adição de um toco de madeira a seu corpo, mas correu como se tivesse três pernas,ao invés de apenas uma (o que significa que não corria tão bem quanto alguém que tivesse apenas duas). Deslizando ao fazer curvas pelo corredor outrora retilínio, ela manteve-se o tempo todo ao lado de Samuel, mesmo quando as balas zuniam a centímetros de seus corpos. Só muito depois é que notariam que estavam de mãos dadas.
Muito depois, depois de terem notado que estavam de mãos dadas, e depois inclusive de terem desdado as mãos, Samuel e Najibah se encontraram enfim em segurança, diante de uma fogueira nas montanhas áridas norte-coreanas.
O que faremos agora?, perguntou Samuel, que comia marshmallows. Como espeto, ele usava uma lasca da perna de pau de Najibah.
Najibah girava em suas mãos a pequena estatueta, a Spirit of Ecstasy, que de alguma forma ela continuara a chutar mesmo enquanto corria desesperadamente dos tiros.
Vamos para casa.
A sua casa? Ou a minha? E neste caso, você quer dizer o avião ou o Brasil? Porque eu bem que gostaria de um clima tropical...
A minha casa.
Você se refere àquela que eu carbonizei com chumbo quente?
Sim. Não, não, me refiro a Brunei!
Na medida em que era possível não guardar rancores de alguém que havia incendiado sua cidade, assassinado seus conhecidos e parentes e causado a amputação de sua perna, Najibah não guardava rancores de Samuel. Não agora, após tanto tempo e quando sua presença quente era a única que a afastava do frio do inverno coreano...
Você vem comigo?, ela perguntou, escondendo a ansiedade de sua voz na mensagem de que ele agora possuía uma escolha.
Samuel comeu um marshmallow demoradamente, com o olhar perdido.
É claro, ele disse. É claro que eu vou.
Em 1998, era comum a visitantes encontrar o sultão Hassanal Bolkiah debruçado sobre um automóvel em sua luxuosa garagem. Agora, porém, ele não se debruçava para esfregar alguma imperfeição da lavagem ou para admirar seu próprio reflexo, mas para manter-se o mais longe possível da faca que Najibah lhe pressionava contra a garganta.
Kim Jong-Il gosta de cinema, ela disse.
Samuel concordou com a cabeça, de forma encorajadora, mas o sultão não parecia entender a importância de tal fato ou sua relação com a proximidade daquela lâmina.
Ele nunca mandaria Samuel voar da Índia para Peshawar, ela explicou, porque ele saberia que isso seria uma repetição da trama de Horizonte Perdido. Ele saberia que o avião haveria de cair.
Mesmo o avião não tendo caído, disse Samuel, prestativo.
B-bom para ele, balbuciou o sultão.
Você, por outro lado, não gosta de cinema, Najibah continuou. Por outro lado (nessa hora, ela sacou a estatueta de metal), gosta da Rolls Royce, não?
Chutando Hassanal para o lado, ela encaixou a estatueta no buraco em cima do capô do automóvel. De repente, Samuel entendeu tudo.
Isso tudo foi um plano do sultão!, ele bradou. Ele me contratou, passando-se por Kim Jong-Il e aproveitando-se da minha incapacidade crônica de diferenciar qualquer um que não seja caucasiano, para atacar vilarejos da região. A intenção era atrair a atenção da mídia para tais atrocidades, o que levaria milionários do mundo todo, inclusive o Bill Gates, a realizar generosas doações às vítimas. Hassanal Bolkiah, assim, consolidar-se-ia mais uma vez como o homem mais rico do mundo. Era o plano perfeito.
Dizendo isso, Samuel rapidamente tomou a faca de Najibah. Em um único golpe, arrancou a cabeça do sultão, abriu sua barriga, introduziu a cabeça lá e costurou tudo de novo.
Ele estendeu a mão para Najibah.
Vamos para casa, disse, puxando-a.
Como todo casal que se encontra em meio a uma perseguição repleta de assassinatos, Samuel e Najibah tiveram suas dúvidas e suas brigas, mas resolveram-nas com uma viagem à praia.
Em Ubatuba, ambos recostavam-se à sombra de um chapéu de sol, enquanto as costas ardiam na areia quente. Najibah inclinou-se para o lado, fitando por baixo do chapéu de abas largas o rosto de Samuel.
Era isso o que você queria?, perguntou.
Isso e nada mais.
Então, está pronto?
Samuel virou-se para ela, sério, e pegou-lhe as mãos.
Najibah, ele disse, eu estou pronto para dar-lhe meu amor irrestrito. Você é dona do meu coração.
Poucos jornais noticiaram o caso. O paradeiro de Najibah é desconhecido.
Vamos!, gritou Samuel.
Najibah ainda não havia se adequado inteiramente à recente adição de um toco de madeira a seu corpo, mas correu como se tivesse três pernas,ao invés de apenas uma (o que significa que não corria tão bem quanto alguém que tivesse apenas duas). Deslizando ao fazer curvas pelo corredor outrora retilínio, ela manteve-se o tempo todo ao lado de Samuel, mesmo quando as balas zuniam a centímetros de seus corpos. Só muito depois é que notariam que estavam de mãos dadas.
Muito depois, depois de terem notado que estavam de mãos dadas, e depois inclusive de terem desdado as mãos, Samuel e Najibah se encontraram enfim em segurança, diante de uma fogueira nas montanhas áridas norte-coreanas.
O que faremos agora?, perguntou Samuel, que comia marshmallows. Como espeto, ele usava uma lasca da perna de pau de Najibah.
Najibah girava em suas mãos a pequena estatueta, a Spirit of Ecstasy, que de alguma forma ela continuara a chutar mesmo enquanto corria desesperadamente dos tiros.
Vamos para casa.
A sua casa? Ou a minha? E neste caso, você quer dizer o avião ou o Brasil? Porque eu bem que gostaria de um clima tropical...
A minha casa.
Você se refere àquela que eu carbonizei com chumbo quente?
Sim. Não, não, me refiro a Brunei!
Na medida em que era possível não guardar rancores de alguém que havia incendiado sua cidade, assassinado seus conhecidos e parentes e causado a amputação de sua perna, Najibah não guardava rancores de Samuel. Não agora, após tanto tempo e quando sua presença quente era a única que a afastava do frio do inverno coreano...
Você vem comigo?, ela perguntou, escondendo a ansiedade de sua voz na mensagem de que ele agora possuía uma escolha.
Samuel comeu um marshmallow demoradamente, com o olhar perdido.
É claro, ele disse. É claro que eu vou.
Em 1998, era comum a visitantes encontrar o sultão Hassanal Bolkiah debruçado sobre um automóvel em sua luxuosa garagem. Agora, porém, ele não se debruçava para esfregar alguma imperfeição da lavagem ou para admirar seu próprio reflexo, mas para manter-se o mais longe possível da faca que Najibah lhe pressionava contra a garganta.
Kim Jong-Il gosta de cinema, ela disse.
Samuel concordou com a cabeça, de forma encorajadora, mas o sultão não parecia entender a importância de tal fato ou sua relação com a proximidade daquela lâmina.
Ele nunca mandaria Samuel voar da Índia para Peshawar, ela explicou, porque ele saberia que isso seria uma repetição da trama de Horizonte Perdido. Ele saberia que o avião haveria de cair.
Mesmo o avião não tendo caído, disse Samuel, prestativo.
B-bom para ele, balbuciou o sultão.
Você, por outro lado, não gosta de cinema, Najibah continuou. Por outro lado (nessa hora, ela sacou a estatueta de metal), gosta da Rolls Royce, não?
Chutando Hassanal para o lado, ela encaixou a estatueta no buraco em cima do capô do automóvel. De repente, Samuel entendeu tudo.
Isso tudo foi um plano do sultão!, ele bradou. Ele me contratou, passando-se por Kim Jong-Il e aproveitando-se da minha incapacidade crônica de diferenciar qualquer um que não seja caucasiano, para atacar vilarejos da região. A intenção era atrair a atenção da mídia para tais atrocidades, o que levaria milionários do mundo todo, inclusive o Bill Gates, a realizar generosas doações às vítimas. Hassanal Bolkiah, assim, consolidar-se-ia mais uma vez como o homem mais rico do mundo. Era o plano perfeito.
Dizendo isso, Samuel rapidamente tomou a faca de Najibah. Em um único golpe, arrancou a cabeça do sultão, abriu sua barriga, introduziu a cabeça lá e costurou tudo de novo.
Ele estendeu a mão para Najibah.
Vamos para casa, disse, puxando-a.
Como todo casal que se encontra em meio a uma perseguição repleta de assassinatos, Samuel e Najibah tiveram suas dúvidas e suas brigas, mas resolveram-nas com uma viagem à praia.
Em Ubatuba, ambos recostavam-se à sombra de um chapéu de sol, enquanto as costas ardiam na areia quente. Najibah inclinou-se para o lado, fitando por baixo do chapéu de abas largas o rosto de Samuel.
Era isso o que você queria?, perguntou.
Isso e nada mais.
Então, está pronto?
Samuel virou-se para ela, sério, e pegou-lhe as mãos.
Najibah, ele disse, eu estou pronto para dar-lhe meu amor irrestrito. Você é dona do meu coração.
Poucos jornais noticiaram o caso. O paradeiro de Najibah é desconhecido.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Batida de asas de borboletas e o estreito caminho das grandes verdades humanas
Algo o incomodava.
Podia ser a escuridão
absoluta que absolutamente escurecia naquele absolutamente escuro
corredor. Podia ser o mero fato de estar ali, tomado de uma só vez
refém e guardião da moça que deveria ter sido apenas mais uma
vítima, indo de encontro a Kim Jon-Il, seu ex-empregador e atual
inimigo. Podia ser o tilim-toc-tilim que Najibah fazia ao chutar, com
a perna de pau, um objeto qualquer que ela achara ao longo do
corredor e que, inexplicavelmente, não perdia na escuridão.
Fosse por quê fosse,
Samuel Matias descontava seu incômodo falando sem parar.
Algo a incomodava.
Podia ser a escuridão
absoluta que absolutamente escurecia naquele absolutamente escuro
corredor. Podia ser o fato de ter perdido tudo o que tinha, inclusive
uma perna, e de ter tido que se unir a seu algoz para ter qualquer
esperança de alcançar a almejada Vingança. Podia ser o maldito
objeto que ela não parava de chutar com sua perna de pau, fazendo
tilim-toc-tilim – mesmo quando ela tentava andar no curso mais
aleatório possível, na compreensível expectativa de que isso a
faria errá-lo. Ou podia ser o fato de que Samuel Matias falava sem
parar.
...e então eu cheguei
à Coreia do Norte, onde fui apresentado a ele pela primeira vez. E
ele simplesmente disse para mim: Voe por aí, despeje cobre derretido
ou o metal que mais lhe aprazer sobre os vilarejos, divirta-se. E eu
pensei: Oras, por que não?, e...
Quanto tempo fazia que
andavam? Najibah havia tentado contar seus passos ao longo do
corredor, mas perdeu a conta quando o tilim-toc-tilim começou a lhe
irritar demasiadamente. Por que Jim Jong-Il estaria em um lugar como
esse? Certamente era seguro, mas algo parecia errado.
...mas claro que as
crianças tinham gritos mais agudos, então eu acabava dando alguma
preferência a elas, veja bem, por questões estéticas, apenas, já
que no mais, era totalmente imparcial, palavra!...
Park, o homem gordo que
os liderava, se fazia saber apenas pelo som dos passos. Ela prestava
atenção. Não havia nenhuma irregularidade no andar dele, pelo
contrário. Era firme, decidido, embora não fosse valente. Além
disso, ele fedia a medo e, numa situação dessas, medo indicava
honestidade.
...e no outro dia ele
já estava animado novamente, então me disse: Voe para a Índia e de
lá para o Paquistão e eu disse Paquistão? e ele disse Sim, para
Peshawar e eu disse oras, claro, por que não? e...
Toda a situação era
um aborrecimento completo, ainda mais porque a perna de pau lhe doía,
mas finalmente Najibah avistava ao longe indícios de iluminação.
Ela estancou.
O que você disse?
Hein?
Sobre o Paquistão. O
que Kim Jong-Il lhe pediu?
Para ir da Índia para
Peshawar, porque lá...
Não.
Não?
Não. Ele não disse.
Ele não diria isso.
Por que não?
Porque ele gosta de
cinema. Se você fosse da Índia para Peshawar, você teria que fazer
um pouso forçado e ir para Shangri-la.
É?
Definitivamente.
Então ele queria que
eu caísse? Porque eu não caí, e...
Não, ele não queria
nada, na verdade...
Ela se abaixou, tateou
o chão. Suas mãos encontraram a peça de metal, o tilim de seus
tocs. À pouca luz que agora havia no túnel, Najibah examinou o
objeto. Era o Spirit of Ecstasy.
Samuel, ela disse,
enquanto Park a chutava para o chão e imobilizava o outro, é uma
armadilha.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Tenebrosa, assombrosa e espantosa caçada ao querido líder
Samuel Matias correu para trás de um pilar e sentiu a bala passar zunindo a poucos centímetros de seu braço esquerdo. Sem olhar, ele disparou três tiros na direção de origem da bala itinerante e continuou em direção a um corredor escuro. À sua frente, Najibah segurava uma pistola com a mão esquerda enquanto estancava um sangramento com a mão direita e fazia toc-toc-toc com a perna de pau.
Eles estavam juntos havia três semanas. Ao longo deste tempo, Samuel realizou cento e oitenta e nove tentativas de fuga, todas elas resultando em sua inexorável captura e em demonstrações convincentes, por parte de Najibah, de que enfrentar norte-coreanos armados era uma perspectiva menos dolorosa do que continuar tentando fugir (Samuel tinha, no fim das contas, alguma dificuldade para assimilar conceitos), de forma que agora ele já não procurava mais por portas nos quartéis-generais inimigos que lembrassem saídas de serviço.
Ao invés disso, ele seguia Najibah, dando-lhe cobertura e matando centenas de norte-coreanos todos os dias, o que, no mais, também não lhe era muito menos divertido do que sobrevoar povoados despejando ferro sobre camponeses. Durante estes vinte dias, eles haviam invadido quase trinta postos militares, matado todas as pessoas lá dentro e (em geral, mas nem sempre, antes) conseguido informações que os levassem mais perto de finalmente encararem Kim Jong-Il frente a frente.
Agora, ambos corriam em mais um desses quartéis, Najibah empenhada em seguir em frente e Samuel preocupado em mantê-los vivos. Najibah fez uma curva repentina, entrando em uma sala grande, com dezenas de militares, que Samuel eliminou com apenas quatro disparos. Najibah olhou para ele e sorriu, deixando-o pensativo enquanto seguiam em frente, abrindo a última sala inexplorada.
Espere, ela disse, quando ele entrou com a arma a postos. Na sala, havia apenas uma mesa de madeira escura, atrás da qual estava sentado um homem rotundo, suado, de olhos expremidos e respiração nervosa.
Precisamos chegar a Kim Jong-Il, disse Najibah, indicativa.
Não me matem!, disse o homem, imperativo.
Talvez não o matemos, disse Samuel, subjuntivo (e também mentiroso), se você colaborar.
Está bem, está bem (começavam a se repetir), disse o homem. Eu os levo até ele.
Najibah ficou atônita por algum tempo. Nos leva até ele?, perguntou. Você não vai nos dar uma dica em forma de charada ou coisa do tipo, como tem ocorrido até agora? Vai realmente nos levar até ele?
O homem, que, por praticidade narrativa, adianto se chamar Park, praguejou diante de sua falta de criatividade, mas confirmou: Sim, levo.
Erguendo-se, Park empurrou a mesa e revelou um alçapão.
De fato, disse, Kim Jong-Il se encontra a poucos minutos daqui.
Eles estavam juntos havia três semanas. Ao longo deste tempo, Samuel realizou cento e oitenta e nove tentativas de fuga, todas elas resultando em sua inexorável captura e em demonstrações convincentes, por parte de Najibah, de que enfrentar norte-coreanos armados era uma perspectiva menos dolorosa do que continuar tentando fugir (Samuel tinha, no fim das contas, alguma dificuldade para assimilar conceitos), de forma que agora ele já não procurava mais por portas nos quartéis-generais inimigos que lembrassem saídas de serviço.
Ao invés disso, ele seguia Najibah, dando-lhe cobertura e matando centenas de norte-coreanos todos os dias, o que, no mais, também não lhe era muito menos divertido do que sobrevoar povoados despejando ferro sobre camponeses. Durante estes vinte dias, eles haviam invadido quase trinta postos militares, matado todas as pessoas lá dentro e (em geral, mas nem sempre, antes) conseguido informações que os levassem mais perto de finalmente encararem Kim Jong-Il frente a frente.
Agora, ambos corriam em mais um desses quartéis, Najibah empenhada em seguir em frente e Samuel preocupado em mantê-los vivos. Najibah fez uma curva repentina, entrando em uma sala grande, com dezenas de militares, que Samuel eliminou com apenas quatro disparos. Najibah olhou para ele e sorriu, deixando-o pensativo enquanto seguiam em frente, abrindo a última sala inexplorada.
Espere, ela disse, quando ele entrou com a arma a postos. Na sala, havia apenas uma mesa de madeira escura, atrás da qual estava sentado um homem rotundo, suado, de olhos expremidos e respiração nervosa.
Precisamos chegar a Kim Jong-Il, disse Najibah, indicativa.
Não me matem!, disse o homem, imperativo.
Talvez não o matemos, disse Samuel, subjuntivo (e também mentiroso), se você colaborar.
Está bem, está bem (começavam a se repetir), disse o homem. Eu os levo até ele.
Najibah ficou atônita por algum tempo. Nos leva até ele?, perguntou. Você não vai nos dar uma dica em forma de charada ou coisa do tipo, como tem ocorrido até agora? Vai realmente nos levar até ele?
O homem, que, por praticidade narrativa, adianto se chamar Park, praguejou diante de sua falta de criatividade, mas confirmou: Sim, levo.
Erguendo-se, Park empurrou a mesa e revelou um alçapão.
De fato, disse, Kim Jong-Il se encontra a poucos minutos daqui.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Quando eu vi o mar, era o último dia do ano e de dezembro. Havia duas meninas atrás de mim, eu não as via porque elas estavam atrás de mim, mas eram duas meninas porque tinham vozes de meninas, e elas falavam comigo mesmo sem eu as estar vendo. Uma me dizia: "Marina, olhe lá, um navio", e eu me divertia porque não me chamo Marina, me chamo José, e não sei por que ela me chamava assim (devia ser porque eu não havia dito meu nome de verdade), mas ainda assim eu olhava e via o navio e era bonito, mesmo, vê-lo assim, refletindo o resto de luz do sol. A outra, tadinha, era ainda mais confusa, dizia: "É mesmo, Alice, e logo ali vai outro", e eu fazia esforço pra não rir, que também não chamo Alice.
As duas ficaram horas e horas, ali, me dizendo as coisas mais absurdas sobre o céu e sobre como em breve haveria fogos e sobre como o tempo estava bom. Conforme a praia enchia, mais gente se apertava na areia, algumas à minha frente, de costas, outras dos meus lados ou do lado das duas meninas que falavam comigo. Essas outras pessoas também me diziam todo tipo de coisa, me diziam "Olha, mãe (mas eu não sou mãe de ninguém, é claro), um passarinho (mas era um morcego, mas quando os morcegos voam bem depressa, no escuro, quem poderia dizer que não são passarinhos?)", ou "Aqueles bolinhos, juro por Deus, não me fizeram bem", ou até "Me dá mais um pouco dessa cerveja", embora eu não tivesse cerveja nenhuma, não soubesse de bolinhos nenhuns, então eu ria, ria.
Acho que foi a melhor noite de 31 do mundo, com tanta gente ali, e eu só fiquei triste por um minutinho, quando alguém disse "Olha ali, um velhinho rindo sozinho", e eu fiquei chateado de pensar nesse velhinho, coitado, sem ninguém pra falar com ele como todo mundo falava comigo.
As duas ficaram horas e horas, ali, me dizendo as coisas mais absurdas sobre o céu e sobre como em breve haveria fogos e sobre como o tempo estava bom. Conforme a praia enchia, mais gente se apertava na areia, algumas à minha frente, de costas, outras dos meus lados ou do lado das duas meninas que falavam comigo. Essas outras pessoas também me diziam todo tipo de coisa, me diziam "Olha, mãe (mas eu não sou mãe de ninguém, é claro), um passarinho (mas era um morcego, mas quando os morcegos voam bem depressa, no escuro, quem poderia dizer que não são passarinhos?)", ou "Aqueles bolinhos, juro por Deus, não me fizeram bem", ou até "Me dá mais um pouco dessa cerveja", embora eu não tivesse cerveja nenhuma, não soubesse de bolinhos nenhuns, então eu ria, ria.
Acho que foi a melhor noite de 31 do mundo, com tanta gente ali, e eu só fiquei triste por um minutinho, quando alguém disse "Olha ali, um velhinho rindo sozinho", e eu fiquei chateado de pensar nesse velhinho, coitado, sem ninguém pra falar com ele como todo mundo falava comigo.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Dê-me seu coração e eu lhe darei cinquenta e três facadas
Samuel Matias tinha uma espécie muito particular de medo de aviões: apesar de passar a maior parte das suas horas despertas voando, e de encontrar grande prazer nesta atividade, lhe provocava arrepios a mera ideia de permanecer dentro de uma aeronave no solo. Isto não é natural, diria ele a qualquer um que lhe indagasse os motivos, acaso houvesse no mundo quem lhe indagasse qualquer coisa. Por isso, tinha o costume de gastar os poentes à procura de locais abertos em que pudesse pousar, em geral em campos próximos às grandes cidades, e passar a noite, dormindo na grama à luz do céu e sob a proteção das asas negras do boing.
Encontrava-se assim o nosso herói quando lhe arranca do sono o toque suave de uma mão em seu ombro. Seus olhos levam algum tempo para se ajustar à luz do sol antes que ele perceba, diante de si, o sorriso terrível da jovem que a ele se dirigia. Somente alguns minutos depois, já imobilizado e amarrado, ele viria a perceber que ela mancava.
Não lhe agradava muito o sabor do sangue escorrendo para a boca, e também era um pouco incômodo enxergar com os olhos inchados, mas o que o aborrecia mais era a claustrofobia qualificada de estar no avião pousado. À sua frente, Najibah, tirava um prazer vingativo do desconforto de sua vítima, enquanto sacolejava um bastão de ferro entre as pernas do homem.
Não que fizesse alguma diferença, mas algo nela demandava uma explicação para o ocorrido, de forma que ela perguntou a ele, afinal, o que levava um sujeito a cruzar o planeta para derramar chumbo derretido em povoados que nunca lhe haviam ofendido.
Diga-me, disse ela, e então eu arrancarei seu coração.
A consequência inevitável da demanda tornava um pouco menos tentadora a ideia de dar-lhe uma resposta, de modo que, a fim de dar-lhe convicção, Najibah fê-la acompanhar por algumas pancadas certeiras do bastão, até que Samuel respondesse em gritos agudos que faziam pouca jus ao conteúdo das palavras: Culpe Kim Jong-Il.
Embora não houvesse nada em nenhum de seus passados possíveis que justificasse tal fato, Najibah era uma pessoa estranhamente politizada para uma camponesa cujas belezas módicas e (mais recentemente) a debilidade de uma das pernas eram compensadas pelo esforço incansável no arado e (mais recentemente) na busca por um único homem, a quem dera o nome de Duque de Chumbo. Diante da revelação, porém, uma nova vendeta se anunciava, de forma que ela abaixou o bastão e declarou ao homem a seus pés:
Você me ajudará a chegar a ele. E então eu arrancarei seus corações.
Encontrava-se assim o nosso herói quando lhe arranca do sono o toque suave de uma mão em seu ombro. Seus olhos levam algum tempo para se ajustar à luz do sol antes que ele perceba, diante de si, o sorriso terrível da jovem que a ele se dirigia. Somente alguns minutos depois, já imobilizado e amarrado, ele viria a perceber que ela mancava.
Não lhe agradava muito o sabor do sangue escorrendo para a boca, e também era um pouco incômodo enxergar com os olhos inchados, mas o que o aborrecia mais era a claustrofobia qualificada de estar no avião pousado. À sua frente, Najibah, tirava um prazer vingativo do desconforto de sua vítima, enquanto sacolejava um bastão de ferro entre as pernas do homem.
Não que fizesse alguma diferença, mas algo nela demandava uma explicação para o ocorrido, de forma que ela perguntou a ele, afinal, o que levava um sujeito a cruzar o planeta para derramar chumbo derretido em povoados que nunca lhe haviam ofendido.
Diga-me, disse ela, e então eu arrancarei seu coração.
A consequência inevitável da demanda tornava um pouco menos tentadora a ideia de dar-lhe uma resposta, de modo que, a fim de dar-lhe convicção, Najibah fê-la acompanhar por algumas pancadas certeiras do bastão, até que Samuel respondesse em gritos agudos que faziam pouca jus ao conteúdo das palavras: Culpe Kim Jong-Il.
Embora não houvesse nada em nenhum de seus passados possíveis que justificasse tal fato, Najibah era uma pessoa estranhamente politizada para uma camponesa cujas belezas módicas e (mais recentemente) a debilidade de uma das pernas eram compensadas pelo esforço incansável no arado e (mais recentemente) na busca por um único homem, a quem dera o nome de Duque de Chumbo. Diante da revelação, porém, uma nova vendeta se anunciava, de forma que ela abaixou o bastão e declarou ao homem a seus pés:
Você me ajudará a chegar a ele. E então eu arrancarei seus corações.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Chuva e sol
Samuel Matias era um sujeito de não muito mais que um metro e meio e com o peso aproximado de um cachorro de médio porte, mas quando ele carregava dezenas de toneladas de chumbo incandescente por sobre pequenos vilarejos do sudeste asiático, despejando-os eventualmente sobre um ou outro povoado, ninguém o diria. Ele sentia algum prazer, é claro, em ver as famílias correndo desesperada e inultilmente para fora do trajeto de seu boing preto, divertindo-se em atingir sempre aqueles que mais lhe chamavam a atenção na multidão, mas não se deixe enganar: havia muito pouco de lúdico em seu trabalho e, na verdade, tratava-se de serviço oficial e aparentemente de suma importância, embora ele nunca houvesse entendido quais os motivos exatos que levaram o governo norte-coreano a contratar um brasileiro para atirar metal quente sobre vilarejos aleatórios (pois ele tinha total discricionariedade em escolher aqueles que mais lhe aprazessem) do referido sudeste asiático. A ignorância é uma bênção, ele costumava dizer, em meio a seus rasantes flamejantes.
Em 1997, o sultão Hassanal Bolkiah, de Brunei, foi eleito o homem mais rico do mundo, superando o americano Bill Gates em patrimônio e em cuidado com o cavanhaque — que era podado meticulosamente por, presume-se, um grupo de funcionárias especificamente contratadas para este fim. A despeito das muitas críticas às suas prioridades, vindas de gente que argumentava que Gates nem sequer possuía um cavanhaque, o sultão seguia bem com sua coleção de automóveis, aviões e descaso para com a situação dos habitantes de seu sultanato.
Nessa época, vivia naquelas terras a jovem Najibah, que compensava as feições modestas com a dedicação dobrada no trabalho (dedicava-se ao cultivo de variados grãos) e no cuidado com a família. Najibah tinha poucos motivos para crer, mas jamais questionara sua fé na fortuna trazida pelos céus, ao menos até o dia em que deles vieram as gotas ferventes de metal derretido, despejadas sem aviso por um distante avião negro. Enquanto sua perna esquerda era consumida pelo calor vulcânico, Najibah pensou ter ouvido um riso ao longe. Ela, que nunca havia questionado a razão de suas mazelas e dificuldades, diante de tão deliberado ato de crueldade, jurou encontrar uma justificativa.
Em 1997, o sultão Hassanal Bolkiah, de Brunei, foi eleito o homem mais rico do mundo, superando o americano Bill Gates em patrimônio e em cuidado com o cavanhaque — que era podado meticulosamente por, presume-se, um grupo de funcionárias especificamente contratadas para este fim. A despeito das muitas críticas às suas prioridades, vindas de gente que argumentava que Gates nem sequer possuía um cavanhaque, o sultão seguia bem com sua coleção de automóveis, aviões e descaso para com a situação dos habitantes de seu sultanato.
Nessa época, vivia naquelas terras a jovem Najibah, que compensava as feições modestas com a dedicação dobrada no trabalho (dedicava-se ao cultivo de variados grãos) e no cuidado com a família. Najibah tinha poucos motivos para crer, mas jamais questionara sua fé na fortuna trazida pelos céus, ao menos até o dia em que deles vieram as gotas ferventes de metal derretido, despejadas sem aviso por um distante avião negro. Enquanto sua perna esquerda era consumida pelo calor vulcânico, Najibah pensou ter ouvido um riso ao longe. Ela, que nunca havia questionado a razão de suas mazelas e dificuldades, diante de tão deliberado ato de crueldade, jurou encontrar uma justificativa.
E, mais importante, vingança.
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