sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Lagarto


Me dá um, não sei, um asco, não: uma pena deles todos e de suas... Suas certezas, sabe? Suas opiniões sobre tudo --- espero que não seja isso, envelhecer: ter opiniões, sempre, e... respostas. Por exemplo: uma vez eu estava num clube de campo (eu era pequeno e a gente fazia essas viagens, sabe?, por a gente eu quero dizer eu e meus pais e depois eu e meu pai, só) então a gente estava nesse clube de campo e de repente vimos correndo --- devia ser a uns dez metros de distância daonde a gente estava --- vimos correndo esse lagarto, sabe? Um daqueles grandões, acinzentados e sem nada de impressionante além do fato de serem grandes e selvagens e naturalmente distantes da nossa realidade cotidiana. Eu tenho um grande apreço por animais de grande porte e em especial por aqueles que não são mamíferos. Então, veja (eu não sei se um lagarto pode ser chamado de animal de grande porte, com exceção dos dragões de cômodo, que eu também não sei se são lagartos), nós estávamos lá, tomando sol ou pegando frutas ou fazendo qualquer outra coisa dessa natureza, está bem?, e passa de repente esse lagarto de vinte e poucos centímetros --- acho que podemos concordar que se trata de um réptil de grande porte, descontados os dragões, os dinossauros e, é claro, os crocodilos, jacarés e aligátores (você saberia apontar as diferenças entre eles? E não e lindo não sabermos?) --- vinte e poucos centímetros, portanto, grande porte com exceção daqueles, e ele estava a mil (poderiam ser mil) quilômetros por hora, acho, porque em um segundo ou talvez nem isso ele havia passado e encontrado um buraco qualquer e então havia sumido. Um segundo foi todo o tempo de que dispusemos para ver aquela intrusão de vida selvagem num clube de campo até então perfeitamente civilizado e de repente um dos amigos do meu pai levantou a lata de cerveja pensativo com um dos olhos meio fechados e disparou, com o tom de quem profere grandes verdades (era EX-AT-AM-EN-TE o que ele estava fazendo) e disse:

ERA FÊMEA.

Jesus, Laura, você entende agora o quanto isso diz sobre ele, sobre nós, sobre todo mundo? Uma fêmea, por Deus, ele no mínimo deve ter reparado nas genitálias de lagarto daquele lagarto durante os cem, se tanto, centésimos de segundo em que ele (ou ela, afinal!) passou por nós. E em tudo é assim, as pessoas estão o tempo todo tão seguras de que as coisas fazem sentido e se sustentam que elas têm liberdade para determinar o gênero de um lagarto que passa correndo por um instante.
E não me olhe desse jeito, como se estivesse prestes a dizer alguma coisa e me fazer oposição; prestes a me chamar de injusto, porque eu sei muito bem que existem diversas maneiras de reconhecer o sexo de diversas espécies animais sem o exame das genitálias, mas eu não acho (acho, Laura, acho) que seja o caso desses lagartos tão comuns que não têm absolutamente nada de especial, nem cores nem nada. E também, não há a menor importância, Laura, é apenas um exemplo, está bem?
Mas, na verdade, todo mundo é assim, todo mundo menos eu. Imagine que as pessoas são seguras o bastante para saírem por aí e se declararem dentistasarquitetosengenheirosdelegadosprofessores, PROFESSORES, Laura! PR-OF-ES-SO-RE-S, e de fato lecionam, constroem etc. E eu? Minha resistência ao CREA, Laura é meu pilar de sustentação, a última tábua a que posso me agarrar e eu me agarro, mas é um maremoto, não uma maré. Todas essas pessoas são, portanto, confidentes umas das outras, isso é, suportam a certeza de unidade e coerência que carregam. Mesmo quando discordam, a seriedade de suas devoções ao Argumento fomenta a opinião contrária, não é mesmo? São, portanto, parte de um mesmo grupo. Nesse sentido, no limite, são todos meus inimigos. Detestam-me, e com razão.
Mesmo o Bruno, reparou em como ele sempre sabe das coisas e sustenta sempre posições contrárias à de quem quer que seja? O prazer da discussão só pode vir da certeza absoluta. Na fé, se pudermos e podemos dizer assim. Quanta confiança você precisa ter para falar o exato oposto daquilo em que acredita?
Por João Pessoa, Laura, mesmo você: certa de minha embriaguez, certa de estar mais consciente que eu e certa --- não tente esconder, foi o Bruno quem me disse e ele percebe tudo --- de que pode me consertar, não é?
E a verdade é que... oxalá você consiga. Que me importa, afinal, se o lagarto é macho ou se é fêmea, podia ser qualquer coisa não é isso o que importa, entende, então eu também poderei fazer cara de quem sabe o que diz e talvez nem veja de verdade o lagarto, mas direi:

É FÊ

não, ainda não posso, você precisa me consertar antes, não é? Ah, por Deus, Laura, por João Pessoa, juro que nunca mais bebo --- por favor, me lembre de não beber, que não quero nunca mais chorar assim na sua frente, você me desculpe. Mas não, são só algumas gotas, não importa, isso, pode deixar, já estou melhor.
É toda essa certeza, toda essa convicção. Me dá, não sei, não é asco, é, talvez, inveja, uma inveja de morrer.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Gabriel queria escrever um romance. Ele já havia escrito outras coisas antes, é claro: historinhas, na denominação utilizada pelos parentes mais próximos e por aqueles que possuíam qualquer dosagem de senso crítico; agora, porém, queria escrever um romance.
O procedimento é relativamente simples, ao menos no que diz respeito ao seu aspecto, digamos, braçal: adquire-se o equipamento necessário, que pode ser uma agenda telefônica e caneta ou uma área suficientemente grande de areia na praia e um pedaço de pau (no caso, optou-se por um computador), dedica-se uma quantidade suficiente de tempo e procede-se com a técnica repetitiva e mecânica de desenhar letras ou pressionar teclas. É isto o que fazem aqueles que escrevem romances e, ao fazê-lo, Gabriel não poderia ser diferenciado de nenhum de seus grandes heróis da Literatura com L maiúsculo.
No entanto, findas algumas horas e diante da página quase completamente vazia, Gabriel percebeu que a tarefa era muito menos simples do que inicialmente se lhe havia apresentado. Dispondo ainda do tempo que havia reservado em seu cronograma e no intento de atiçar a criatividade, nosso intrépido herói deu uma rápida olhada ao redor, à procura de qualquer objeto que lhe servisse de inspiração.
Ao seu lado, encostado à parede e coberto de poeira, estava o antigo violão. Um violão é um instrumento musical e, portanto, artístico; a música e a literatura são espécies diferentes de um mesmo gênero e, portanto, o empenho a uma certamente renderia seus frutos à outra. Dotado de tal convicção, Gabriel tomou o violão em suas mãos e pôs-se a dedilhar uma das raras melodias que subsistiam em sua memória. Os dedos correram sozinhos pelas cordas, engasgando-se, às vezes, mas demonstrando-se razoavelmente corretos.
Produziram um som odioso.
Gabriel percebeu-se, então, diante de um novo problema: não sabia como afinar o instrumento. Dirigiu os olhos tentados à tela do computador, em cujo canto superior esquerdo reluzia o ícone do navegador Firefox, deixado ali a postos. Um dilema moral nasceu dessa observação: havia imposto a si mesmo a restrição de não desperdiçar seu tempo de escrita na internet, vício dos vícios. No entanto, tocar o violão era, de certa forma, parte do processo de escrita, e aprender como afiná-lo era parte do processo de tocar o violão. Após alguma reflexão, consentiu em liberar-se de sua restrição, desde que fosse exclusivamente com este bom intento.
Após alguma pesquisa, porém, observou outra dificuldade: não lhe bastava simplesmente mimetizar os sons que alguns sites ofereciam, para saber que o violão estava afinado. Era preciso ir a fundo, refletir sobre a natureza das escalas musicais, sobre a razão de ser das variações microtonais etc. Não o fazer seria reduzir seu empenho musical a uma tarefa isenta de raciocínio crítico, o que obviamente contrariava as demandas mais básicas da escrita literária — e afinal, era isso o que ele estava fazendo: escrevendo.
Imergiu-se, assim, no estudo de teoria musical. Evidentemente, um dia não lhe bastou, então os dias se passaram e ele lia com olhos vidrados tudo o que podia encontrar sobre o assunto. Após quatro anos, julgou-se apto a, enfim, afinar o violão, o que de fato fez.
Terminado este primeiro passo, Gabriel pôs-se a tocar, agora com muito mais clareza e convicção, e até mesmo a compor. Sempre que lhe ocorria voltar os olhos à página em branco e talvez pressionar uma ou outra tecla, percebia que ainda não estava pronto, de forma que voltava a correr os dedos pelas cordas.
Até que, é claro, aquilo já não lhe bastava. No oitavo ano, saiu de casa apressado e comprou um contrabaixo. Depois, seguiram-lhe um sax, um piano de cauda, uma flauta doce, uma cuíca, uma gaita diatônica etc. No décimo quinto ano, após breve vislumbre do cursor que piscava impaciente na página vazia do Word, Gabriel decidiu que era hora de investir mais seriamente na literatura, motivo pelo qual comprou os mais avançados equipamentos de gravação e edição de som e sintetizou, em seu quarto, mesmo, seu primeiro álbum musical.
O sucesso desse primeiro disco fez com que um segundo fosse lançado, em obra que contou com a feliz participação da Berliner Philharmoniker.
Notando que nem a aclamação popular, nem os inúmeros prêmios, nem os milhões de dólares adicionados à sua conta bancária lhe eram suficientes para a escrita, Gabriel então percebeu que estava se desviando demasiadamente de seu caminho. No vigésimo oitavo ano de produção do romance, ele decidiu que era necessária uma completa reviravolta em sua vida, de forma que foi imediatamente a uma loja próxima e adquiriu acetona, carvão, tinta a óleo e telas. Repetiu os procedimentos de estudo e prática e, no trigésimo terceiro ano, foi destaque tanto no Moma quanto no Tate.
O que, evidentemente, não se deu sem seus contratempos: teve que recusar o convite para participar em uma campanha publicitária de televisores Sony, porque, conforme afirmou em japonês irrepreensível (aprendido como forma de inspiração e ampliação de horizontes linguísticos) ao exasperado representante de marketing da empresa, isso atrasaria o término de seu livro, que, afinal, era seu principal propósito.
Após similares incursões ao teatro, cinema, arquitetura e escultura, Gabriel chegou mesmo a inventar novas modalidades artísticas, utilizando-se de meios e linguagens nunca antes concebidas. Aos oitenta e oito anos, teve um enorme monumento em sua homenagem erguido na plataforma espacial Tiangong e celebrações foram realizadas pelo mundo nas ocasiões de seus aniversários de noventa, noventa e cinco e cem anos.
Quando faleceu, aos cento e quatro anos, uma editora alemã conseguiu os direitos de publicação de seu romance, consistindo em uma capa em que figurava apenas seu nome e três folhas quase completamente em branco, com duas ou três palavras espalhadas de forma aparentemente aleatória em cada uma. Os jornais do mundo todo noticiaram com tristeza a ocorrência e ressaltaram o afinco de seus estudos, seus contínuos esforços nos mais variados campos do saber e, acima de tudo, o empenho irrestrito à literatura.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Laura

Quando eu era pequena, eu gostava de ficar na casa da minha avó.
Era uma casa grande, mas boa para crianças pequenas (e eu sei disso porque eu era uma criança pequena). Então, eu ficava lá.
A casa tinha uma sala grande, uma cozinha grande.
Ou eu era pequena.

Mas tinha um cano de ferro verde que descia desde o andar de cima e a gente (mas só gente pequena) (e só quando ninguém estava olhando) usava para subir até o andar de cima.
Tinha uma escada, também.
Mas eu subia sempre (que ninguém estava olhando) pelo cano. Porque as gentes grandes subiam pela escada e eu era pequena e gostava mesmo era de subir pelo cano verde. E chegando lá em cima, no segundo andar, tinha a grade da janela e um muro. E o muro era perto da janela. E a janela era perto do cano de ferro verde. Então a gente subia no cano verde. E depois na janela. E depois no muro. E a janela também era verde, mas o muro era branco (mas não muito branco, porque a gente subia nele).
De lá, dava pra ir andando até o outro lado. O outro fim do muro, porque um muro tem dois lados e dois fins. Mas a gente não fazia isso.
Não.
A gente se esticava toda em cima do muro e apoiava o pé na grade da janela (que ficava perto do muro) e pisava ao mesmo tempo que puxava com a mão. Assim a gente conseguia subir no telhado da casa. Em cima da janela e do muro e do cano verde. E do segundo andar e do primeiro e das pessoas lá dentro. E a gente, que era pequena, ficava mais alta que todo mundo. A gente ficava mais alta que a minha avó e todas as outras gentes grandes.
E a gente gostava disso.
E a gente era eu.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Showbiz

Desci a escada improvisada de madeira quase caindo, mas tinha gente lá, muita gente e me seguraram, me pegaram a mão e me botaram de novo no caminho (o caminho estreito entre as pessoas, o caminho que iam abrindo na minha frente com alguma truculência apesar dos Com licença, com licença!, um com licença gritado, mandado e sem opção que até é de se perguntar se é cabível, mesmo, esse termo que provém da permissão e do consentimento: licença). Os gritos das meninas e o dos homens de voz aguda se sobressaem no meio da gritaria total da multidão, então parecia que só havia adolescentes ao meu redor e eu tive que me esforçar pra não pensar que estava falando para um bando de idiotas. Que horror.
Um homem conseguiu de algum jeito entrar na minha frente. Era um sujeito tão devagar e barbudo que eu fiquei pensando em como era possível que logo ele tivesse conseguido se meter ali, mas para mim, francamente, não fazia diferença nenhuma, porque tudo era tão absurdo que esse tanto a mais ou a menos, oras, nem merecia crédito. Você tem toda a razão, ele disse com aquela voz devagar e barbuda, eu penso exatamente como você e ele batia no meu ombro (bater, não, que senão os truculentos o tirariam dali, mas ele punha as mãos dele, devagares e barbudas, no meu ombro e repetia mil vezes que eu estava certo e que era aquilo mesmo), meu Deus, que horror, me devolvam os adolescentes, se preciso for.
Me esquivei com um sorriso, porque as pessoas estão sempre dispostas a aceitar um sorriso como resposta, ainda mais quando se está tão absolutamente certo quanto eu supostamente estava, e segui sorrindo, já, pra facilitar o trabalho dos flashes e do sujeitinho de terno e cigarro que me esperava à porta e que, no dia seguinte, teria que fazer mil ligações para todos os jornais caso eu não sorrisse e dizer algo como Não era mal-humor, claro que não, era apenas um verdinho no dente que queria esconder, uma couve que sobreviveu às salivadas de duas horas e treze minutos de uma mpbzinha sem vergonha e, é claro, dizem, muita razão. Também não é, vejam bem, que eu realmente me importasse com quão facilitada seria a vida do sujeito, ainda mais que ele certamente não facilitava a minha em nada, mas àquela altura (foram duas horas de mpb da pior espécie e muita razão) já eu me sentia um barbudo vagaroso que sorri para todo mundo e diz Vocês, meus senhores, têm toda a razão, a maior razão do mundo; e não há quem possa questionar isso, pois A diz que B está certo e B defende cegamente as opiniões de A e quando C olha mais de perto, vê-C logo que porra nenhuma foi dita e que foda-se tudo isso.
Então segui sorrindo enquanto todo mundo aplaudia, faziam um verdadeiro espetáculo (aqui, autorizo expressamente que o leitor atribua à palavra qualquer sentido cabível ou incabível, inclusive aqueles não listados sob o verbete nos dicionários e já pra facilitar a vida daqueles menos imaginativos, cito: cavalo, revista, estrela (são palavras escolhidas em processo semi-dadaísta, porque sujeito a revisão em que excluí nomes próprios)), um horror, um horror, e me pareceu incrível que ninguém, nem a mais mísera puta alma tenha percebido que por mais maravilhosas e cheias de razão que tivessem sido aquelas duas horas, aquelas vinte horas, aqueles vinte anos de mpb, por mais cheias de razão, dizia, eu agora estava era descendo as escadas, quase caindo, ainda por cima e teria sido melhor, quiçá, se tivesse caído, mesmo, me acabado no chão e sido retirado de lá em uma maca, porque aí pelo menos ficaria livre dos gritos agudos e dos tapas barbudos, por Deus. Mas ninguém ligava, acho que era isso: não falta de atenção, mas falta de interesse, mesmo, e de... contato. CO-MU-NI-CA-ÇA-~O. Seja como for, todos preferiam crer na ilusão dos concertos futuros, ainda maiores, mais cheios de adolescentes e de vagarosidade barbuda, mais cheios de, com o perdão do palavrão, razão.
O que me tranquilizou.
Tanto fazia, afinal, que eu estivesse lá ou, sei lá, em um catamarã, palavra mais linda da língua portuguesa, da tamil e de todas as outras, palavra mais linda do mundo inteiro e de mil concertos de neo-mpb e de um catamarã.
O homenzinho me apressava. Eu disse que tudo bem, que ele fosse indo e que eu pegaria um ônibus, o que o fez rir honestamente e me chamar de uma figura e me conduzir discretamente (a mão direita dele se insinuando levissimamente no meu braço esquerdo) para o banco de trás da BMW, cuja porta um outro sujeito, ou talvez fosse o mesmo, já segurava aberta como seu sorriso e (eu percebi então) como o meu.   

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Notas sobre música

Na segunda metade dos anos sessenta, artistas hippies e beatniks, empolgados com a onda psicodélica, se debruçaram sobre novas tecnologias de iluminação e som e começaram a aplicá-las a novas formas de expressão. A experimentação era a regra e inúmeras bandas novas compunham músicas que, embora inspiradas pelo blues, o jazz e o que já existia do então novato rock'n'roll, não pareciam com nada que houvesse sido feito antes.
Em concertos destinados a um público muito parecido com os próprios artistas, estas bandas se extendiam por horas, tocando qualquer coisa que fosse condizente com as experiências psicodélicas experimentadas, na plateia e no palco, graças à ajuda supostamente libertadora do LSD. Uma dessas bandas, que originalmente se autodenominava um grupo de blues, fazia improvisações longuíssimas, seguindo a empolgação própria e dos ouvintes que se aglomeravam em número cada vez maior para ver seus shows.
Os músicos em questão, que eram quatro que viraram cinco e voltaram a ser quatro, tinham empregos ou estudavam (pelo menos um deles até gostava do que fazia), mas já então largaram tudo pela "carreira" musical. Mas aqueles não eram tempos de shows pequenos, e a banda em pouco tempo se "profissionalizou". O sucesso de Dark Side of the Moon jogou os quatro membros do Pink Floyd (já sem a presença de Syd Barrett) no mundo do estrelato, do dinheiro e dos mega concertos pirotécnicos em estádios lotados. Mas algo muito curioso aconteceu.
Em primeiro lugar, é notável, nos discos posteriores, um certo rancor contra este mundo. Em segundo lugar, manteve-se sempre um excesso de menções ao membro ausente. São duas coisas, à primeira vista, difíceis de explicar.
A primeira questão é ainda mais complexa do que parece. A aversão à fama é relativamente comum e poderia explicar por que uma banda que atinge tamanho sucesso faria um álbum como o The Wall, que conta a história de um rockstar depressivo. No entanto, mais relevante para a história da banda do que o conto de Pink é a alienação deste em relação ao mundo e a todos. A música Hey You é icônica desse sentimento de distância, quando o eu-lírico se dirige a um ouvinte igualmente alienado com a pergunta: Can you feel me? A idéia, aliás, se repetiria em álbuns futuros, particularmente em Wish You Were Here (album particularmente relevante para o segundo ponto a ser discutido), nas músicas Welcome to the Machine e Have a Cigar (“By the way, which one is Pink?”). A entrada da banda para a indústria fez com que ela perdesse todo o contato que tinha com seu público, ficando nas mãos de quem nem sabia os nomes de seus integrantes. O ápice dessa situação foi a cusparada disparada por Roger Waters em um fã que, em um show, não parava de gritar — para ele, não fazia diferença o que estava sendo tocado; não havia uma conversa efetiva.
Sobre Syd Barrett, o caso também me intrigava muito. Syd participou da criação da banda, é verdade, mas já não fazia parte dela quando o Pink Floyd virou o que é. Por mais que se alegue que sua influência permaneceu, é difícil dizer que aquela banda psicodélica é a mesma que se consagraria depois. Além disso, outras bandas perderam integrantes sem que se criasse tanto alarde. Em parte, foi só por causa deste mistério que eu fiz questão de me informar sobre o passado do Pink Floyd. E o que descobri é que o Syd, um cara carismático, espontâneo e vanguardista, não representa apenas algo que o Pink Floyd foi um dia, mas também algo que a banda, ao longo de sua trajetória, continuou a querer ser. É de se questionar se Syd teria suportado o que a banda virou, caso não tivesse, ele também (mas, é claro, de outro modo), se alienado.
Essa, é claro, é a história de uma banda. Mas também é a história de uma forma de se fazer música. Uma forma caracterizada pelo poder da indústria, pelas multidões, pela idolatria quase cega às estrelas. E uma história que, como a do Pink Floyd (Live 8s à parte), parece estar a ponto de terminar.

A venda de CDs não é mais o que já foi. Apesar do choro das empresas do ramo, ainda vende-se música — e não apenas música virtual —, mas é claro que este mercado vai se limitar cada vez mais, até ficar restrito a colecionadores, a gente que não sabe usar a internet ou a loucos de toda sorte. A Warner, a Universal e suas amiguinhas vão-nos dizer que esse é o fim da música, enquanto qualquer clube da Rua Augusta e suas dezenas de excelentes bandas novas vão dizer que, bem, talvez não seja pra tanto. De todo modo, porém, algo está acontecendo.
Quando não se ganhar mais dinheiro com venda de CDs, o dinheiro vai vir das apresentações ao vivo. O boom de grandes concertos e festivais no Brasil é sinal disso, e as estatísticas estão por aí. Quem quiser números pode procurar a Piauí de novembro de 2011 (vejam como aspiro à imortalidade), mas a mudança é mais ou menos óbvia. O importante mesmo são as implicações dessa mudança.
Por enquanto, mesmo com a diminuição da dependência dos artistas em relação às gravadoras, ainda há uma força muito poderosa na determinação de quem vai dar certo e quem não vai, e que é capaz de criar sucessos como o do Pink Floyd. É uma força contrária à tendência proporcionada pela internet — esta tenda a dar pouca influência a cada banda individual, mas a distribuir a atenção a um número enorme, infinito de grupos —, mas que está longe de ser moribunda, como é o caso dos CDs. Trata-se da mídia.
Ao contrário das grandes empresas de gravação e distribuição, o rádio e a TV não são grandes vilões no imaginário popular. Eles tocam as músicas que a gente conhece e ama e nem nos cobram por isso. O Queen gosta do rádio. O Dire Straits gosta (?) da MTV. Por Deus, eu não sei se sobreviveria sabendo que a Mit FM não existe mais.
É por isso que me dói dizer isso, mas o rádio também vai morrer. Pode ser que demore anos, décadas, mas o que a gente conhece como rádio não vai sobreviver. E, é claro, a TV vai segui-lo de perto. Mídias de caminho único, em que o espectador é mudo (ou, no máximo, contribui “mandando sua programação discando para 7777-7777!”) não podem durar no nosso mundo. Elas são um resquício de um tempo morto, são algo que a gente guarda por pura nostalgia ou, no máximo, por comodismo. Como aquele quadro renascentista ou qualquer outro bibelô anacrônico de que não conseguimos nos desfazer. Mas um dia a gente vai seguir em frente, ou então nossos filhos e netos, que não terão o mesmo carinho por essas velharias, o farão por nós. E, como os quadros renascentistas, um dia essas mídias serão peças de museu.
Nesse dia, a história da música dos superstars terá acabado — salvo, é claro, pelo Live 8 ocasional. Dizer isso pode machucar os sentimentos de alguém, então vou fazê-lo logo: nunca mais teremos outros Beatles. Nunca mais. Nunca mais teremos o mundo inteiro cantando a mesma música, gostando do mesmo cantor, idolatrando a mesma celebridade musical.
E não se engane: essa vai ser a melhor coisa que vai acontecer para a música nos últimos cento e tantos anos. Porque, se não teremos mais uma oligarquia em que alguns poucos músicos encantam milhões de fãs, teremos milhões de músicos encantando dezenas de fãs. A música vai ser aquilo que ela nasceu para ser: a mais pessoal das experiências coletivas. Será comunicação de verdade, como era quando nasceu, nas rodas pequenas, imagino, em volta da fogueira. E o mais lindo de tudo é que isso ocorrerá de duas formas completamente diferentes — opostas, até. Por um lado, teremos uma experiência individual coletivizada: a pessoa que ouve uma mp3 em casa, mas que a compartilha com os amigos ou com desconhecidos pela internet. De outro lado, uma experiência coletiva — os concertos, as festas — serão individualizadas, à medida em que o músico poderá olhar nos olhos de quem está à sua frente, falar-lhe diretamente. Nunca mais haverá um Pink Floyd que fature milhões, mas também nunca mais se precisará cuspir em alguém que, da primeira fileira, pareça distante a ponto de não poder sentir o cantor.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Júlio Marins, atualmente com trinta e quatro anos, não tem um labrador nem um grande aquário marinho em seu apartamento duplex. Sequer tem um apartamento duplex. Em qualquer projeção que já fizera em toda a sua vida, mesmo naquelas feitas na véspera de seu último aniversário, Júlio sempre se vira aos trinta e quatro anos em um duplex, com um labrador e um grande aquário marinho com as mais escabrosas espécies de crustáceos e moluscos que pudesse encontrar.
Durante sua infância, Júlio notou um fenômeno metereológico até o momento inexplicado pela ciência mas que o perseguiu desde então: todos os seus bons desempenhos em avaliações eram precedidos por pequenas catástrofes climáticas, que envolveram ventanias mais ou menos controláveis e tempestades de verão, chegando ao Furacão Catarina, na data de divulgação de sua última nota antes da formatura em uma faculdade particular de Santa Catarina e culminando nas enchentes de 2008, ano em que concluiu seu mestrado em Comunicações. No campo profissional, sua sorte não era muito melhor e Júlio, já treinado para observar essas coincidências, rapidamente reparou que todas as bonificações, promoções e aumentos recebidos em seus dias como redator de uma revista de entretenimento corresponderam à morte de um grande ídolo ou de algum familiar — o que, em parte, explica sua atual atuação como free-lancer, bem como a ausência de um duplex, um labrador e um aquário em sua vida.
Sua maior sina, no entanto, são os assuntos do coração. Cada uma das mulheres que Júlio amou conseguiram, de alguma forma, machucar-lhe de uma forma que o fazia sentir-se destruído, torturado, assassinado.
Nada disso, porém, o desanima. "Vá lá que para cada passo à frente, dou também um para trás", diz. "Mas nunca parei de dançar".

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Fim: Justiça em dois atos

Samuel Matias conseguiu, graças ao oportuno alerta de Najibah, esquivar-se de Park, quando este o atacou. Um tiro na têmpora fez o serviço, mas Samuel achou por bem disparar trinta e nove outras vezes para assegurar a morte do homem.Do fim do corredor, onde a luz fraca tremulava, ouviu-se a movimentação de centenas de milhares de homens.
Vamos!, gritou Samuel.
Najibah ainda não havia se adequado inteiramente à recente adição de um toco de madeira a seu corpo, mas  correu como se tivesse três pernas,ao invés de apenas uma (o que significa que não corria tão bem quanto alguém que tivesse apenas duas). Deslizando ao fazer curvas pelo corredor outrora retilínio, ela manteve-se o tempo todo ao lado de Samuel, mesmo quando as balas zuniam a centímetros de seus corpos. Só muito depois é que notariam que estavam de mãos dadas.

Muito depois, depois de terem notado que estavam de mãos dadas, e depois inclusive de terem desdado as mãos, Samuel e Najibah se encontraram enfim em segurança, diante de uma fogueira nas montanhas áridas norte-coreanas.
O que faremos agora?, perguntou Samuel, que comia marshmallows. Como espeto, ele usava uma lasca da perna de pau de Najibah.
Najibah girava em suas mãos a pequena estatueta, a Spirit of Ecstasy, que de alguma forma ela continuara a chutar mesmo enquanto corria desesperadamente dos tiros.
Vamos para casa.
A sua casa? Ou a minha? E neste caso, você quer dizer o avião ou o Brasil? Porque eu bem que gostaria de um clima tropical...
A minha casa.
Você se refere àquela que eu carbonizei com chumbo quente?
Sim. Não, não, me refiro a Brunei!
Na medida em que era possível não guardar rancores de alguém que havia incendiado sua cidade, assassinado seus conhecidos e parentes e causado a amputação de sua perna, Najibah não guardava rancores de Samuel. Não agora, após tanto tempo e quando sua presença quente era a única que a afastava do frio do inverno coreano...
Você vem comigo?, ela perguntou, escondendo a ansiedade de sua voz na mensagem de que ele agora possuía uma escolha.
Samuel comeu um marshmallow demoradamente, com o olhar perdido.
É claro, ele disse. É claro que eu vou.

Em 1998, era comum a visitantes encontrar o sultão Hassanal Bolkiah debruçado sobre um automóvel em sua luxuosa garagem. Agora, porém, ele não se debruçava para esfregar alguma imperfeição da lavagem ou para admirar seu próprio reflexo, mas para manter-se o mais longe possível da faca que Najibah lhe pressionava contra a garganta.
Kim Jong-Il gosta de cinema, ela disse.
Samuel concordou com a cabeça, de forma encorajadora, mas o sultão não parecia entender a importância de tal fato ou sua relação com a proximidade daquela lâmina.
Ele nunca mandaria Samuel voar da Índia para Peshawar, ela explicou, porque ele saberia que isso seria uma repetição da trama de Horizonte Perdido. Ele saberia que o avião haveria de cair.
Mesmo o avião não tendo caído, disse Samuel, prestativo.
B-bom para ele, balbuciou o sultão.
Você, por outro lado, não gosta de cinema, Najibah continuou. Por outro lado (nessa hora, ela sacou a estatueta de metal), gosta da Rolls Royce, não?
Chutando Hassanal para o lado, ela encaixou a estatueta no buraco em cima do capô do automóvel. De repente, Samuel entendeu tudo.
Isso tudo foi um plano do sultão!, ele bradou. Ele me contratou, passando-se por Kim Jong-Il e aproveitando-se da minha incapacidade crônica de diferenciar qualquer um que não seja caucasiano, para atacar vilarejos da região. A intenção era atrair a atenção da mídia para tais atrocidades, o que levaria milionários do mundo todo, inclusive o Bill Gates, a realizar generosas doações às vítimas. Hassanal Bolkiah, assim, consolidar-se-ia mais uma vez como o homem mais rico do mundo. Era o plano perfeito.
Dizendo isso, Samuel rapidamente tomou a faca de Najibah. Em um único golpe, arrancou a cabeça do sultão, abriu sua barriga, introduziu a cabeça lá e costurou tudo de novo.
Ele estendeu a mão para Najibah.
Vamos para casa, disse, puxando-a.

Como todo casal que se encontra em meio a uma perseguição repleta de assassinatos, Samuel e Najibah tiveram suas dúvidas e suas brigas, mas resolveram-nas com uma viagem à praia.
Em Ubatuba, ambos recostavam-se à sombra de um chapéu de sol, enquanto as costas ardiam na areia quente. Najibah inclinou-se para o lado, fitando por baixo do chapéu de abas largas o rosto de Samuel.
Era isso o que você queria?, perguntou.
Isso e nada mais.
Então, está pronto?
Samuel virou-se para ela, sério, e pegou-lhe as mãos.
Najibah, ele disse, eu estou pronto para dar-lhe meu amor irrestrito. Você é dona do meu coração.

Poucos jornais noticiaram o caso. O paradeiro de Najibah é desconhecido.