terça-feira, 11 de novembro de 2014

Presente

Hoje em dia, eu voltei a ter medo do escuro. Medo do que há debaixo da minha cama. Medo do que há escondido no corredor.
E com o medo deveria vir a vergonha do medo, porque adultos podem ser paranóicos, se quiserem, podem instalar antivírus, trocar a senha do cartão, comprar um segundo celular, tudo dentro de um grande contexto de adultês ou adultério, conforme o caso, mas de todo modo tudo isso lícito, mas não podem ter medo do escuro, não podem de jeito nenhum pular para o mais longe que puderem da cama, de modo a fugirem do que quer que se esconda ali. Mas eu sinto medo que nem uma criança e muito francamente não sinto vergonha nenhuma, escrevo aqui, inclusive, o que não me impede de me perguntar de vez em quando por que eu fui voltar a ter medo do escuro - justo agora, eu quero dizer.
Tem outra coisa, aliás, outra coisa que resolveu me assolar agora, mas essa eu sei bem de onde vem, uma espécie de culpa ou raiva ou ambas, culpa que vira raiva que vira: efeito colateral grave mas delicioso de enfim me tornar eu mesmo, enfim falar e fazer alguma coisa, tudo errado e tudo certo, lendo tanto, também, lendo o tempo todo, e lendo também as coisas erradas ou lendo errado as coisas certas. E tão infinitamente feliz!, como nunca, talvez, antes!, tão cheio de mim e do mundo que eu às vezes quero filmar tudo o que eu vejo e mostrar pra vocês!, escrever tudo o que penso e mostrar pra vocês!, egocêntrico, talvez, mas não, mais altruísta que egocêntrico: um mundo tão lindo quanto o que eu vejo todo dia!, vocês mereciam ver também!: as flores no chão da ciclofaixa da Pedroso!, os grafites da José Queiroz Aranha!, aquele descascadinho no móvel que às vezes me lembra a cabeça de um lobo!.Tudo vai bem portanto.
Já era hora, afinal, de sentir medo de alguma coisa.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Futebol é só futebol. No fim, é isso. Escrevo logo depois de o Brasil tomar 7 da Alemanha, uma derrota inédita na história da Seleção e na minha, o país ainda humilhado e atordoado, e afirmo sem medo de errar que é futebol, só, e nada mais.

Me disseram isso antes da Copa: me falaram sobre a ilusão de um povo, sobre as mentiras dos poderosos, sobre o nacionalismo errado, mentiroso, hipócrita. Me disseram que fazer ou tomar 7, numa semi-final de Copa do Mundo ou na quadra do prédio --- me disseram que isso era nada.
Em outro assunto: eu gosto de Literatura. Eu estudo, leio, às vezes até faço, acho, Literatura. E se você gosta de Literatura, você é meio que obrigado a aceitar que o futebol, como tudo o mais no mundo, seja um pouco mais que aquilo que é. Um pouco mais que, bem, futebol. 
Pra você gostar de Literatura, você tem que admitir que um mundo de fatos aleatórios e sem sentido não é suficiente. Você tem que entender que as pessoas atribuem significado às coisas não porque sejam fracas e carentes de algum tipo de conforto espiritual (não só por isso, pelo menos), mas porque a vida é triste se não for transcedental, porque a gente foi arremessado em um mundo hostil e nos foi imposto, a partir dele, construir significados.
A gente tem perdido a capacidade de fazer isso. Acho que Weber falou sobre como o mundo fazia sentido para os homens de antigamente e sobre como, conforme nosso entendimento do universo foi aumentando, as coisas fugiram da nossa capacidade de compreensão. Que ele falou sobre como as religiões se esforçavam para explicar todos os elementos da natureza e para integrá-los em um sistema uno, e sobre como isso não acontece nas grandes religiões monoteístas. Walter Benjamin, falando sobre a morte da narrativa, diz algo muito parecido. Segundo ele, a partir da Primeira Guerra Mundial, o mundo se tornou grande demais para ser compreendido de forma coerente por um único indivíduo. Tratando da substituição da tradição da narrativa pela do romance, Benjamin conclui: "Com efeito, numa narrativa a pergunta - e o que aconteceu depois? - é plenamente justificada. O romance, ao contrário, não pode dar um único passo além daquele limite em que, escrevendo na parte inferior da página a palavra fim, convida o leitor a refletir sobre o sentido de uma vida."
Mesmo assim, a gente tende a achar que as coisas são... mais do que coisas. As pessoas dizem que a organização e a civilidade alemã prevaleceram sobre a malandragem brasileira. Comparam Wagner e o Lepo Lepo, Merkel e Dilma. As pessoas falam como se o mundo amanhecerá amanhã diferente de hoje; diferente porque o Brasil foi derrotado, humilhado, massacrado em casa. Um professor uma vez sugeriu que, se a derrota em 1950 levou o Brasil a se consolidar como potência futebolística nas décadas seguintes, uma possível vitória em 2014 poderia afastar de vez nossa estigma de país do futebol. Talvez ele tenha alguma teoria para os efeitos do jogo de hoje.
Mas, no fim, é só futebol. O fato de torcermos para as colônias contra os colonizadores não vai vingá-las; torcermos a favor ou contra o Brasil não vai nos aumentar como Nação. O torcedor vitorioso não vai acordar livre dos seus problemas no dia seguinte.
É possível, evidentemente, viver sem esse tipo de... distração. Como é possível, claro, viver sem Música, sem Cinema, sem Literatura. Independentemente das teorias que criemos, a chuva cai lá  fora, a entendamos ou não. Um dia, vai saber, a ciência vai explicar todos os fenômenos do mundo. Nesse dia, não precisaremos aprender nada com essa derrota.
Até lá, é preciso viver.

segunda-feira, 23 de junho de 2014


Eu queria morar em Brasília
onde os prédios são baixinhos
bem pertinhos
e queria morar em Paris
onde já teve uma revolução
e quem sabe não tem outra
Só queria morar longe da inércia
da inevitabilidade
da vida
onde ainda resistam os espíritos da terra
e se possa voar quando ninguém olha
Eu queria morar em Brasília
onde já teve uma revolução
e quem sabe não tem outra.

terça-feira, 10 de junho de 2014

1.

Há muito, muito tempo, mesmo, em uma vila de pescadores, havia um dragão. Os homens e as mulheres, porque naquela vila os gêneros não determinavam a função da pessoa, saíam de manhã para o mar e suas redes voltavam sempre cheias de peixes que eles assavam nas chamas fartas de fogueiras coletivas, e sempre havia música e comida em abundância. Os trabalhos eram divididos e a comida também. Quem não podia pescar, ou não queria, porque naquela vila as pessoas eram relativamente livres para fazer suas escolhas, se ocupava de cuidar das crianças e ensiná-las, de proteger as casas contra animais selvagens, de fazer os reparos necessários nas construções, de fazer arte, de cuidar dos doentes, de fazer estradas, de construir embarcações ou o que mais fosse necessário. E evidentemente algumas pessoas optavam por não fazer nada e apenas se beneficiar do trabalho alheio, o que também era possível naquela vila, mas a maioria das pessoas simplesmente não queria isso, ou pelo menos não na maioria dos dias. De um modo geral, era uma vila harmoniosa e funcional, cujos poucos desentendimentos ocasionais eram prontamente solucionados por um grupo, eleito entre todos os moradores e representativo tanto dos interesses das maiorias quanto das necessidades das minorias, equivalente ao que nós habitualmente chamamos ou deveríamos chamar Judiciário. Mas o dragão era um problema.
Ele dormia em uma montanha próxima, uma montanha cujo cume era coberto de gelo em todos os meses do ano, mesmo quando o povo lá em baixo ardia sob o sol, mas a cada quinze dias, ou um pouco mais, se o tempo fosse bom e o ar estivesse calmo, ou então um pouco menos, quando chovia muito ou as ventanias vinham do sul, ele acordava. Voava por sobre a vila, destruindo casas com seu fogo, afundando barcos de pescadores ou mesmo caçando pessoas para comer. Se ocupava dessas malfeitorias por um mês, ou um pouco mais, caso estivesse bem disposto, e de qualquer modo nunca menos do que isso, e então batia as asas novamente em direção à montanha, onde se acomodava para dormir, inocente, por mais quinze dias, ou um pouco mais, ou um pouco menos.
Os moradores da vila se incomodavam muito com esse infortúnio, mas durante muito tempo não fizeram nada a respeito, porque acreditavam que o bicho podia um dia simplesmente ir embora ou morrer de velho. Ninguém sabia muito bem por quanto tempo vivia um dragão, já que não conheciam nenhum outro, pelo quê eram gratos, e aquele nunca havia morrido, pelo quê lamentavam e porque não lhes parecia muito fácil matar uma monstruosidade daquelas. Um dia , porém, um grupo de pessoas, eleito entre todos os moradores e atento tanto aos clamores das maiorias quanto ao silêncio das minorias, equivalente ao que nós habitualmente chamamos ou deveríamos chamar Executivo, decidiu que era hora de fazer alguma coisa.
Assim, como era o costume do lugar, todos os moradores se juntaram e saíram em direção à montanha, exceto por aqueles que não podiam fazer a viagem, por motivo de saúde, idade ou presença de deficiência motora, e por aqueles que optaram por não ir, o que também era possível naquela vila. No fim das contas, cerca de metade da vila saiu naquele dia e caminhou pela pradaria em direção à montanha, levando consigo apenas algumas ferramentas básicas, umas poucas trocas de roupa e alguma comida.
Enquanto caminhavam, uma pessoa foi mordida por uma cobra peçonhenta e morreu ainda na mesma noite, após horas ardendo em febre. Enquanto escalavam a montanha, três pessoas se feriram com graus diferentes de seriedade e decidiram voltar à vila, julgando-se, com ou sem razão, impossibilitadas de seguir a viagem. E a elas se juntaram as outras tantas que se cansaram, se amedrontaram ou por qualquer outro motivo desistiram de seguir viagem em direção ao cume, de modo que três sétimos da vila, apenas, chegaram ao ninho onde o dragão dormia, inocente. Essas pessoas se viram, então, diante de uma criatura de dimensões colossais, de escamas impenetráveis, cuja respiração era capaz de aquecer todo o ar em um raio de cerca de quinze metros, e constataram sem grande surpresa que a tarefa de executar um dragão não seria simples. 
Nessa vila, porém, as decisões não eram tomadas precipitadamente, de forma que muito já havia sido deliberado acerca de como seria o curso de ação para cumprir a missão de eliminar a terrível ameaça. Para começar, haviam concluído que o ideal seria aniquilar a fera em apenas um golpe, evitando-se assim o inconveniente de o animal acordar e começar a fazer coisas desagradáveis, como se defender ou, o que a opinião geral havia reconhecido como muito pior, contratacar. Uma pessoa observou que seria difícil subir a montanha levando armamentos, também porque aquela era uma vila de tendências pacíficas que nunca havia dedicado grandes esforços à indústria bélica. Outra pessoa sugeriu que uma alternativa seria simplesmente empurrar o dragão montanha abaixo, deixando seu próprio peso e a gravidade cuidarem do serviço. A proposta tinha a vantagem de dispensar equipamentos cujo transporte seria inconveniente, mas foi rapidamente rechaçada pelo grupo, que supôs que o dragão provavelmente acordaria durante a queda e, acordado, não teria dificuldade para simplesmente agitar as asas e voar montanha acima ou mesmo em direção à vila. Outra sugestão consistia em introduzir --- pela boca, pelas narinas ou por onde fosse possível --- pólvora e combustíveis variados no dragão, para posterior explosão da criatura. Essa ideia, porém, também não resistiu à sabatina, visto que considerou-se, com muita pertinência, que introduzir materiais inflamáveis ou explosivos em uma criatura basicamente constituída de fogo seria uma tarefa inglória. Finalmente, o consenso geral foi o de que o dragão deveria ser acorrentado --- da maneira mais sutil que os habitantes da vila pudessem fazê-lo (e os habitantes daquela vila, ou ao menos alguns deles, sabiam ser bastante sutis, visto que se empenhavam a toda variedade de processos artísticos ou científicos que exigiam grande precisão) --- até que não houvesse chance de escapar, e, então, o grupo poderia se posicionar em local seguro e atacá-lo com as ferramentas de que dispusesse, ou, ainda, embora esse fosse um ato de crueldade que contrariava a moral da maioria dos habitantes daquela vila, deixá-lo lá, incapaz de levantar voo ou caçar, até que ele morresse de fome, de sede ou nas mãos de quaisquer predadores que ousassem se aproveitar de sua impotência.
Assim, em resumo, os moradores da vila que resistiram à viagem se encontraram finalmente diante daquela criatura de dimensões colossais, que respirava fogo e os amedrontava mesmo em seu sono, cientes da dificuldade da tarefa que lhes cabia, mas dotados de um plano. O grupo se organizou então de modo a que todas as partes desse plano pudessem ser executadas adequada e simultaneamente, e passou a se ocupar da colocação das correntes que deviam ser inicialmente presas a porções rochosas da montanha (e não a árvores ou a pedras que pudessem ser posteriormente carbonizadas ou movidas, respectivamente, pelo dragão) e depois cuidadosamente passadas por sobre o animal, com o cuidado de imobilizarem-se todos os membros e articulações (as do rabo despertando particular preocupação); da fixação, por cima das asas do bicho, de uma rede feita com grandes tiras de couro; de vestir por sobre os olhos do dragão uma imensa venda que lhe retirasse totalmente a visão; de amarrar-lhe o maxilar, dificultando que ele voltasse a exibir os dentes ou soprar fogo sobre quem quer que fosse.
A execução dessas tarefas se deu, de um modo geral, com grande precisão e cuidado, mas, de todo modo, os eventuais erros decorrentes da inépcia de alguns dos habitantes daquela vila ou do simples nervosismo causado pela proximidade com aquela criatura terrível foram encarados por todos como naturais e inevitáveis em uma empreitada de tal magnitude, também porque naquela vila os moradores procuravam sempre ajudar àqueles com dificuldade e atuar e forma a minimizar os efeitos das diferentes habilidades de cada um, ao invés de criar ou incentivar discriminações baseadas nessas diferenças. A despeito disso tudo, porém, e também porque, como todos sabiam, matar um dragão não era tarefa fácil, ainda que se tivesse um plano, a missão daqueles moradores que subiram a montanha e encararam o dragão foi tremendamente mal sucedida. Isso porque, em meio à execução dos procedimentos todos que constituíam a estratégia dos habitantes da vila, todos eles descritos acima, o dragão --- em decorrência, talvez, de algum dos erros também descritos acima, ou de algum outro, ou ainda por outra razão qualquer --- acordou.
Os habitantes da vila que haviam resistido à viagem, e se deparado com o dragão, e iniciado os procedimentos que deveriam levar à sua execução --- tais moradores estavam empenhados justamente em tais procedimentos quando tal dragão respirou mais profundamente (matando por combustão meia dúzia de tais moradores), abriu os olhos do tamanho de choupanas e agitou sua enorme cabeça, através de espasmos violentos de seu enorme pescoço (ferindo, por contusão, outra meia dúzia de tais moradores). O monstro agitou suas asas, arremessando ao ar couro, correntes e uma terceira meia dúzia de habitantes daquela vila, e então saltou com um gesto brusco de suas patas traseiras, cujos músculos se demonstraram mais duros mesmo que as próprias rochas da montanha nas quais eram presas as correntes.
O salto imediatamente se transformou em voo, mas um voo que nada tinha a ver com o planar tranquilo das águias que giram nos céus aproveitando-se das correntes de vento, se assemelhando muito mais com os mergulhos que essas mesmas águias davam ao avistar, ao longe, suas presas. Assim, o dragão se atirava em fúria contra os habitantes daquela vila que haviam chegado até seu território, todo garras e dentes e chamas, com precisão perfeita e velocidade violenta, e esses moradores, que haviam levado consigo apenas umas poucas armas montanha acima, e de qualquer forma nenhuma delas de fogo, porque o fogo era o elemento do inimigo, lutavam contra ele da forma como podiam, ou então não lutavam, porque não podiam ou porque não queriam fazê-lo, preferindo correr ou se esconder ou contemplar a morte que se impunha contra eles.
Metade das pessoas que haviam chegado ao ninho do dragão, e que correspondiam a três catorze-avos da população da vila (se bem que esta, a esta altura, também já havia sido bastante reduzida) havia morrido antes que qualquer dano pudesse ser infligido ao inimigo; outro quarto (ou três vinte-e-oito-avos, ou outra fração qualquer que considere as baixas sobre a população total da vila) morreu quando o dragão ainda parecia simplesmente imbatível. Mas então alguma coisa aconteceu.
Com menos inimigos, o réptil, habituado a atacar grandes aglomerados de gente, perdeu eficiência. Ao contrário do que ocorre com predadores como as leoas ou as chitas, o dragão não adotava usualmente a estratégia de seguir uma única presa em meio ao rebanho, mas sim a tática, usada por golfinhos ou tubarões, de juntar uma grande quantidade de animais em um mesmo ponto, cercando-os e encurralando-os, para depois abocanhar um grande número de uma só vez. Isso funcionava bem quando o intuito era conseguir comida na vila, mas trazia dificuldades agora que, movido por um desejo de vingança, ele pretendia aniquilar cada um e todos os indivíduos que haviam chegado até seu ninho.
Os moradores da vila ainda morriam ou eram feridos pelo bicho, mas agora, espalhados e escondidos entre árvores e pedras, começou a lhes parecer possível sobreviver. Mais um pouco e algumas daquelas pessoas, primeiro uma e depois outras, mas decerto não todas, se convenceram de que, com algum cuidado, seria possível inclusive atacar o dragão. Assim, saltando de trás de uma pedra com uma faca na mão ou atirando uma seta do topo de uma árvore ou ainda girando alguma corrente pelas costas do bicho, aquelas pessoas começaram a machucá-lo. 
Quanto mais lhe feriam, mais o dragão se confundia. Não demorou muito, começou a sangrar.
A luta foi lenta e o dragão continuava a atacar e ferir e matar pessoas, mesmo enquanto essas tinham algum sucesso em também atacá-lo, e também ferirem-no. Finalmente, restou ao dragão um último suspiro de vida; e restou, ao grupo de moradores da vila que havia subido a montanha e chegado ao ninho e lutado, uma única mulher. Os dois se encararam, um de frente para o outro, o dragão caído ao chão e já com os olhos semicerrados, a mulher assombrada pela enormidade das mortes que havia presenciado, e ambos sabiam o que ia acontecer. Não foi preciso mais que um chute --- um chute sem raiva nem crueldade; um chute que foi apenas o que era preciso --- para que estivesse tudo terminado.

***

Muitas vezes depois disso, a mulher se perguntou se teria sido apenas coincidência. 
Era possível, claro, que aquela vila fosse protegida por alguma entidade mágica que quisesse demonstrar seu agradecimento à mulher que matou o dragão. Era possível, também, que o dragão guardasse uma última maldição para quem o matasse. Ambas as hipóteses eram possíveis e capazes de explicar o que aconteceu depois. 
Mesmo assim, nos anos seguintes, ela não pode deixar de pensar que poderia ser só coincidência. Talvez, com ou sem a morte do dragão, ela estivesse mesmo destinada a viver para sempre.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A ideia é extrair o máximo de significação de cada palavra, então ela para e pensa e escolhe os termos mais perfeitos para expressar cada conceito. Ela quer escrever um romance, mas sabe que tantas palavras são um disperdício, uma ofensa ao poder semântico do Signo, então ela faz cortes. Uma novela, um conto, um microconto. 140 caracteres para contar uma vida. Ela quer escrever algo em que cada palavra, cada sinal de pontuação, tenha seu significado máximo.
Cortar. Um microconto de cinco, quatro, três palavras. Sai o artigo, duas palavras pelas quais ela revela sua alma. Ela para, pensa, apaga uma.
Ainda é muito. Respira fundo, relê o texto, elimina a derradeira palavra.
Sobra um ponto: final, único, definitivo.
Perfeito.
.
Ela quer escrever um romance e acha que chegou à essência. Relê, revisa.

Corta.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Mas se seus sonhos forem grandes --- e se você tiver muito, muito medo
o suicídio, como hipótese, é um seguro 
de vida

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Pulei do primeiro andar --- não morri
tive medo de pular
do sexto
Não é uma questão de medo --- nem de coragem
mas é uma questão:
de liberdade

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Já não fui médico --- nem astronauta
que custaria não ser
poeta?

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Me matei uma vida inteira --- casei
tivesse ficado solteiro
tinha me matado outra

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Fui a uma reunião hoje --- quase duas horas;
ao final, a surpresa:
estava duas horas menos vivo

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Um adolescente passou quarenta horas no computador --- morreu;
outros estão já há alguns anos
mas seguem vivos
Um homem quis se matar --- proibiram-no:
cortaram-lhe o direito de usar lâminas, o acesso a lugares altos,
o pulso.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Eu não penso em suicídio --- tenho medo:
posso acabar
morrendo

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

eu queria ser rico
pra não precisar
queria ser rico pra não precisar ser rico

eu queria ser rico
pra morar em uma casa
pra morar em uma casa bem pequena

 com um sofá de couro velho
velho e rasgado
e livros velhos guardados
no chão

e quando me perguntassem
onde está minha empregada
meu carro minha piscina
e quando me perguntassem o que eu ando fazendo da minha vida
eu diria sou rico
sou rico eu diria e não preciso