sexta-feira, 1 de junho de 2012

Mar, 2


Acho que eu sempre acreditei que morreria dentro da água. Atirado contra alguma pedra, afogado por ter me deixado agarrar por um polvo, envenenado pelas pinças peçonhentas de algum crustáceo, enfim, fosse como fosse. Por isso, quando as ondas se revoltaram e me arremessaram na costa de um penhasco durante um mergulho no litoral de Moçambique, eu fui tomado por uma serenidade fúnebre. Mesmo assim, agarrei-me como pude a um coral, sentindo minhas mãos se rasgarem. Fiz o que consegui para me segurar, mas a maré me puxava de volta, me cegava os olhos, me roubava o fôlego. Administrando minhas forças entre a necessidade de erguer a cabeça acima da água e de atar os braços à parede rochosa do penhasco, consegui como que por milagre me firmar entre duas pedras. Vi que a água ao meu redor estava vermelha de sangue e eu sentia vagamente alguma dor nos membros arranhados, mas o frio e a adrenalina me anestesiavam. Respirei, procurei me apoiar melhor e me ergui.
As ondas ainda batiam com força, de modo que fiquei por algum tempo parado, concentrado apenas em não ser atirado novamente contra as pedras. Meus braços ardiam, meus olhos ardiam, minha boca estava cheia de água e sal. De repente, senti vontade de gritar. Eu estava vivo.

Um comentário:

ALEXANDRE disse...

"Seu sentido simbólico corresponde ao do 'oceano inferior', [...] agente transitivo entre o informal (ar, gases) e o formal (terra, sólido) e, analogicamente, entre a vida e a morte. [...] 'Voltar ao mar' é como 'retornar à mãe', morrer."

(CIRLOT, Juan-Eduardo - Dicionário de símbolos)